Arquivo mensal: março 2011

Beijo!

 

Há algum tempo atrás escrevi um post falando sobre o abraço. Que era mais importante que o beijo e tudo mais, como vocês podem conferir no aqui. Mas desta vez quero falar daquele que foi deixado em segundo plano, mas não menos importante. O beijo.

Nos dias atuais o beijo se tornou uma coisa banal, corriqueira, todo mundo sai por ai distribuindo beijo como se não houvesse amanhã. Vide micaretas e outras baladas do gênero. É comum você ouvir alguém falar, “Beijei quinze, dezoito, trinta e quatro numa noite”.

O beijo é algo tão íntimo, restrito, muitas vezes secreto e proibido, não pode ser entregue assim tão desavergonhadamente, não pode ser invasivo, pode ser roubado, permitido, jamais intrometido. Talvez o fato de nossa vida estar cada vez mais aberta, exposta, acaba por sobrar até para o coitado do beijo.

Acho o beijo à parte mais importante da conquista, sem beijo não se tem nada. Quem nunca teve uma experiência decepcionante com beijo? Aquela pessoa que parece ser sua alma gêmea, a metade da laranja, combina com você mais do que feijão com arroz, rola toda aquela sedução, aquela conversa, chega na hora da verdade, o beijo é péssimo, não encaixa. Isso é normal, chega a ser engraçado, as bocas não combinam se repelem, por mais que melhore um pouco com a prática, nunca se tornará um beijo bom para uma das partes. Já outras vezes acontece o inverso, no primeiro beijo, rola a chamada química, tudo combina simetricamente, os lábios, a língua, o tempo certo, tudo. E pensar que você não dava a mínima para a pessoa, e de repente não mais que de repente não quer parar de beijá-la. E ai você lembra as sábias palavras de Cazuza “… Matando a sede na saliva.” é o que você quer fazer pelo resto da vida. E isso não tem nada a ver com paixão, amor, apenas o contato de duas bocas causa isso.

Não é um fato simples, a falta de um beijo deixa as pessoas transtornadas, amarguradas, frias, e exemplifico isso. Quando estamos sofrendo de abstinência sexual, os homens em sua grande maioria acabam por fazer justiça com as próprias mãos (que me perdoem os puritanos que freqüentam esse espaço, se é que freqüentam, mas se você ainda não faz, um dia fará e verá quanto tempo perdeu), já o beijo não tem como, ou você vai treinar com uma laranja, ou então tentar “pescar” um gelo com a língua dentro de um copo, usar as técnicas adolescentes para se aprender a beijar não funciona, não satisfaz a sua vontade de dar um beijo.

Momento único, os segundos que precedem um beijo, são extremamente importantes, como se você estivesse pedindo autorização para adentrar em um território desconhecido, o consentimento muitas vezes se dá com uma leve inclinação da cabeça para o lado, e assim o beijo é consolidado.

Considero o beijo extremamente íntimo, e tende a ser preservado em sua origem, para o fim que foi criado, não podendo ser desperdiçado assim a bel prazer. Claro que todos possuem livre-arbítrio e fazem o que bem entendem da vida, mas nada mais gostoso do que um beijo apaixonado e cheio de carinho, não é?!

 

 

Quem tem medo da morte?

Quero falar de um assunto que assusta muita gente. Inclusive a mim, por não ter uma opinião formada sobre o assunto. Talvez eu a tenha, mas não da forma como gostaria de ter, talvez se fosse mais bem resolvida dentro de mim, seria um medo que deixaria de existir. Falarei sobre a temida e assustadora MORTE.

Para algumas crenças e religiões como o Espiritismo ela é apenas uma passagem para o plano espiritual. Para os católicos é o momento do “acerto de contas” onde saberemos se iremos sentar a direita de Deus Pai, ficaremos por um tempo no purgatório, ou partiremos direto para o inferno, tudo claro dependendo de nossas condutas se foram corretas ou não. Há também aqueles que acreditam que a morte seja o fim de tudo, que assim que fecharmos os olhos acabou não existe mais nada, é o fim da linha.

Certa vez uma amiga após ler um texto meu, questionou-me algo que até então eu nunca havia prestado atenção, perguntou-me o porquê deu sempre relacionar as crianças com morte nos textos? Fiquei por muito tempo pensativo, sem saber uma resposta, mas acredito que seja a melhor forma de expressar uma dor muito grande para uma pessoa, quando se perde um ente querido, e para uma criança é mais difícil ainda porque não é fácil explicar e pela pouca experiência de vida dela, entender a perda.

Eu no alto de todo meu exagero gosto de usar a morte como exemplo, no sentido figurado é claro, para expressar o encerramento de uma fase, de uma etapa de vida, e o nascimento de uma nova, com perspectivas e esperanças renovadas. Podemos dizer que durante uma vida chegamos a morrer por diversas vezes, para depois renascermos novos em folha, com a mesma carcaça, umas rugas a mais, alguns fios brancos na cabeça, mas com idéias e pensamentos diferentes. Isso é muito importante nos faz crescer, amadurecer.

Neste período da minha vida percebi que o fim de uma etapa estava se encerrando, certa melancolia foi me tomando, e assim passei alguns dias, triste, cabisbaixo, refletindo sobre aquela fase, não sabia ao certo quando ela iria se encerrar, mas de repente, um belo dia acordei renovado, cheio de vontades novas e metas para serem cumpridas. Foi como se o velho Thiago estivesse morrido e nascido um novinho em folha. Perspectivas muito boas consigo avistar, como uma criança cheia de energia espero encarar essa nova fase, com disposição para fugir da foice da Dona Morte.

Brasilidade

Neste final de semana gravei mais uma mixtape, só com cantores e bandas brasileiras. Algumas figuras já conhecidas, como Céu e Curumin, outras que estão despontando agora como Sabonetes e Thiago Pethit. Tem muita coisa boa para conferir, como o Hurtmold, banda que está presente nos projetos individuais de Marcelo Camelo, com sua pegada instrumental que flutua entre o jazz o punk rock e funk americano. Tem também Pequeno Cidadão, projeto de Arnaldo Antunes e Edgar Scandura e seus pimpolhos, e a meiga Tulipa Ruiz com sua voz doce e suave.

Espero que gostem!

 

01 – Thiago Petit – Mapa Mundi

02 – Tulipa Ruiz – Efêmera

03 – Céu – 10 Contados

04 – Curumin(Part.Especial: Arnaldo Antunes) – Sertão Urbano

05 – Hurtmold – Mike Tyson

06 – Mombojó – Casa Caiada

07 – Móveis Coloniais de Acaju – O Tempo

08 – Sabonetes – Hotel

09 – Copacabana Club – Just Do It

10 – Pequeno Cidadão(Killer On The Dancefloor remix) – O X

 

Chuva, Lágrimas e Indiferença!

 

Fim de mais um dia de trabalho. Ela junta suas coisas, celular, bolsa, chave de casa. Uma passada rápida no banheiro vê se está tudo no lugar, cabelo preso, retoca o batom, lava as mãos e sai. Despede-se do vigia que toma conta do prédio durante a noite, e assim parte rumo ao ponto, a espera do ônibus que a levará para casa. O trânsito como sempre carregado, já se acostumara com a rotina, mas hoje o risco de chuva a fez se preocupar. Revirou a bolsa e não encontrará o guarda-chuva, olhou para cima, e com pensamento positivo, torceu para que o ônibus chegasse antes da água.

Sorte! A condução apontou na reta, e logo ela embarcara naquela lata de sardinha motorizada. Foi se esquivando, desviando e espremendo, até achar uma posição semi-confortável logo após a catraca. Mais alguns pontos e já conseguira se acomodar em um assento na janela.

Ao seu lado senta um jovem, roupa social amarrotada, mochila no colo, típico universitário que começara a trabalhar recentemente, como distração fones no ouvido, naquele volume que incomoda quem está perto. Em poucos instantes, ela passa a identificar a música que vaza do fone. Conhecera aquela a melodia, a letra, e na velocidade de uma freada brusca do ônibus, foi levada ao passado. Não tão distante assim, mas que ela desejara esquecer, ao menos manter guardado em algum lugar que não alcançasse com facilidade. Melodia que embalou o primeiro beijo daquele jovem casal apaixonado, que se conhecera por acaso em uma festa qualquer. Respirou fundo, uma triste coincidência do destino.

As primeiras gotas de chuva começaram a bater contra as janelas do ônibus, ela se perdera nos pensamentos, um turbilhão de sensações invadira a mente. Pensou, “porque agora? Pensei que tivesse superado essa fase, não pode ser qualquer coisa boba que me faça ficar mole assim”. Veio à segunda música, o coração acelerara. Não pode ser pensou ela – Olhou para o lado, para ver o rosto do rapaz. “quem é você? Porque está fazendo isso comigo?” quase indagou o sonolento companheiro de banco, mas ficou quieta, deixou os pensamentos tomarem conta mais uma vez. Seu olhar se perdera pela paisagem da cidade que rodara através do vidro. Lágrimas se confundiam com as gotas da chuva que caiam pelo vidro, deixou o sentimento tomar conta. O estômago revirara, não queria acreditar, afinal de contas fora ela que dera um basta na história, e agora estava sentindo aquele golpe.

Não esperou chegar o seu ponto, deu o sinal, desceu no meio do caminho, e foi caminhando para casa. Chuva para acalmar aquele coração confuso, precisara se recompor. Caminhou até a praça quase em frente a sua casa, sentou em um banco e ficou ali em silêncio, com a roupa encharcada, os olhos inchados e os pensamentos bem longe dali. Sentira o peso da culpa, sua tão grande e exclusiva culpa. E sem perceber, eis que ele surge à praça. Sorria. Indiferente a sua presença!

Mauricio e suas velhas fitas k7!

 

Mauricio era uma criança tranqüila, assim como seus colegas, vivia correndo pela escola chutando uma bola ou fugindo do pique esconde, batia figurinhas, visitava a casa dos avós aos domingos, adorava a macarronada com frango da avó Arminda, como a chamava. No seu aniversário de 10 anos tudo mudou. Foi apenas um presente, aquele presente que trouxe um novo sentido a sua vida. Ganhou um walkman, daqueles antigos a pilha, e que precisava de fitas k7 para se ouvir alguma coisa. Presente dado por seu tio “meio esquisito” Augusto. Ele achava aquele tio um pouco estranho, irmão da sua mãe, em sua casa possuía muitas coisas velhas, desde livros, discos, roupas, tanto que ele era dono de um brechó na cidade. Mas era um sujeito bacana, e aquele presente se tornou algo desafiador. O tio o chamou de canto e disse: “– Garoto, com esse aparelho você irá ouvir as vozes do mundo, tudo estará ao seu alcance, basta dar ouvido a eles”.

A mensagem instigou o pequeno Mauricio, e logo após o “parabéns” correu para o quarto, pegou as pilhas do controle da tevê, encaixou tudo, positivo e negativo, cada qual no seu lado, fones no ouvido, deu o play e nada, o motor girou o vazio, não tinha nenhuma fita k7, o pequeno garoto nem sabia que isso ainda existia. Tudo estava tão diferente, tudo mudado, e seu tio estranho entrega aquela geringonça para ele e ainda diz que ele poderia ouvir o mundo. O tio muito do esperto, sabia que o garoto era curioso, e providenciou algumas fitas aleatórias, e as deixou antes de ir embora.

Já na cama, pegou a primeira fita, estava escrito apenas “Verão de 1987” no lado A, no verso não continha nada, apertou o play, e uma enxurrada de sons inundou os ouvidos do garoto, que tomou um baita susto com aquela barulheira toda. Aos poucos foi se acostumando as vozes, aos instrumentos, as melodias, e assim pegou no sono. Um belo e doce sonho.

No outro dia já fora a escola com os fones no ouvido, fones que se tornaria com o passar do tempo amigo inseparável de Mauricio. Na hora do intervalo já não corria mais atrás dos outros garotos, na mochila várias fitas k7, estava adorando todas aquelas músicas, e o mais gostoso, aquela coleção de fitinhas que precisava carregar. Começou a pedir para sua mãe levá-lo a casa de seu tio, queria muito mais daquelas, de onde saíram às primeiras. Augusto feliz com a surpresa tratou de separar as melhores, tirou a poeira de umas caixas que estavam guardadas no porão da loja e assim, uma por uma, foi entregando ao garoto, sem antes contar as histórias e o motivo que fizeram gravar aquelas músicas.

O tempo passou e o menino cresceu. Seu quarto já estava forrado de fitas, eram caixas e mais caixas, que Clarice, a empregada tropeçara toda vez que ia arrumar o quarto do adolescente Mauricio. Agora ele tinha um gravador em que produzira suas próprias fitas, da maneira como quisesse. Nos aniversários ou troca de presentes com a família, sempre presenteara a pessoa com uma seleção de música. Aquilo passou a ser sua vida. Não sabia tocar nenhum instrumento, nem sequer tentou aprender, o gosto era por editar, cortar, e gravar todas aquelas músicas. Sempre com fone no ouvido, todos a seu redor achavam que o garoto não estava naquele mundo. E realmente ele não estava. Isso lhe rendeu muitas broncas de sua avó Arminda, o macarrão com frango continuara delicioso, mas agora era acompanhado dos fones. Não prestara mais atenção nas conversas e acontecimentos a sua volta. Seu mundo era seu quarto, fitas espalhadas, cada qual devidamente nomeada, e guardadas, fones, seu gravador, e o velho walkman que ganhara há muito tempo.

Já no cursinho, mal prestara atenção nas aulas, apenas em uma garota de pele clara, olhos verdes, cabelos escuros com sorriso doce. Não sabia seu nome, nem do que gostava apenas se encontravam às vezes pelos corredores, um tímido “Oi” era o máximo que conseguira esboçar, tamanha timidez.

Mas o universo conspirara a favor de Mauricio, em uma pequena confraternização de final de ano, os alunos decidiram organizar a brincadeira tradicional de final de ano, o amigo secreto. Nomes recortados em papeis, dentro de um saquinho improvisado. Os olhos de Mauricio percorriam a sala, imaginando o que cada um gostaria de ouvir, já escolhera o que dar de presente ao seu amigo, gostava do impacto que a musica causara nas pessoas e isso para ele já era um grande presente. Foi então que chegou a sua vez, enfiou a mão no saquinho e tirou um pequeno papel, abriu discretamente tratando de olhar se alguém ao redor estava espionando, leu rapidamente o nome, Roberta. Esse era o nome dela, seu coração disparou, começara a suar frio, pela primeira vez não soube o que estava acontecendo, não poderia dar uma simples fita k7, não sabia o que ela gostara, e agora? O que fazer?

Dúvidas atormentaram a cabeça do jovem Mauricio até o dia da troca de presentes, passara noites em claro, ouvira todas as suas fitas uma centena de vezes não conseguira decifrar o que a dona daqueles olhos lindos gostara de ouvir. Decidiu arriscar, e no último dia, terminou a sua gravação. Comprou um lindo cartão, pediu para sua mãe fazer um belo embrulho de presente e assim, com o coração na mão partiu.

Todos estavam presentes, alegres, por mais aquele fim de ano, expectativa para os vestibulares, muitos comes e bebes, até que Jarbas, o professor mais engraçado e brincalhão da turma decidiu dar inicio a troca dos presentes. A brincadeira se iniciou assim um a um foram revelando seus amigos, presentes bonitos, outros nem tanto, e a ansiedade de Mauricio aumentando, nada de chamá-la, e muito menos o seu nome, será que esqueceram? Não é possível pensara ele, todos vieram e com seus devidos presentes a tiracolo. Não pode ser, será que ela? Assim foi até sobrar apenas os dois. Com as bochechas rosadas de vergonha, sentira o calor tomar conta de seu corpo, caminhou cambaleante até o centro da roda, e apenas disse com a voz trêmula e envergonhada: “- Bom como todos já sabem, minha amiga secreta é você Roberta”. Ela levantou, caminhou em sua direção, o garoto tremera mais que vara verde no vendaval, e entregou o seu pequeno embrulho para ela, que abriu seu lindo sorriso agradecendo-o. Ela voltou a sua cadeira e pegou um pacote estranho, fino, meio quadrado, e entregou ao jovem. Com um pouco de vergonha entregou o presente, os olhos brilharam, tanto dele com o pacote quanto o dela com o sorriso ganho. Era um disco de vinil, lindo, com capa novinha e tudo que se tem direito. Duas novas paixões acabaram de nascer naquele momento, ambas carregariam para o resto da vida!

Mulheres que fazem minha cabeça!

Passei este fim de semana separando algumas músicas, tentei achar um tema para a “estreia” nas mixtapes. Mostrar o que se gosta de ouvir de uma força aleatória não causa o impacto que você gostaria que causasse para quem está ouvindo pela primeira vez. Afinal de contas você já está familiarizado com aquele tipo de música. Por isso foi um trabalho cansativo mas muito prazeroso, adoro mostrar a todo mundo aquilo que ouço diariamente.

Desta forma decidi por um tema recorrente em minha vida: MULHERES.

Separei algumas que com suas vozes doces, suaves, agressivas, belas, me encantam. Apreciem e vejam a beleza do sexo feminino assim como eu vejo.

 

01 – Céu – Lenda

02 – Marisa Monte – Não É Proibido

03 – Joss Stone – Baby Baby Baby

04 – The Gossip – Stand In The Way Of Control

05 – Amy Winehouse – Fuck Me Pumps

06 – She & Him – I Was Made For You

07 – Tulipa Ruiz – Às Vezes

08 – Adele – Chansing Pavements

09 – Florence and The Machine – Hurricane Drunk

10 – The XX – Shelter

Amadurecência

 

Não sei bem ao certo quando tudo isso aconteceu. Sem dia, ou hora marcada, acho que definitivamente ela chegou. Ainda tenho rompantes de certos comportamentos juvenis, mas hoje em dia eles não são o norte na minha vida. Afinal de contas, quem não gosta de extravasar às vezes? Só sei que agora ela faz parte de mim. Que coisa engraçada, e eu que pensei que ela nunca chegaria. Mas ela veio, e agora é para ficar. Estou falando da maturidade.

Talvez, acredito que ela não se faça presente na sua melhor forma, mas sinto que ela já está comigo há algum tempo. O mais engraçado disso tudo é que ela chega sorrateiramente, sem dar sinais aparentes, se instala, e quando nos damos conta, ela já participa da nossa vida.

Pude notar algumas manifestações, de sua presença em alguns acontecimentos recentes, não só na minha vida, mas de alguns amigos. Mas preciso me certificar se isso são sinais de amadurecimento, ou cansaço causado pelo stress do dia a dia, afinal de contas, passado o período pós-faculdade, todos agora trabalham, e possuem responsabilidades (olha um sintoma dela).

Não estou falando que agora estou pronto para casar, construir uma família feliz e ter uma casa no campo. Cada um expressa o seu crescimento de uma forma diferente. Mas tudo converge para isto, nos tornarmos maduros.

Os exemplos se tornam os mais clássicos possíveis, coisas daquele tipo “eu jamais faria, falaria, usaria ou qualquer verbo ia que você souber conjugar”, mais cedo ou tarde você fará, isso é um fato. Idéias utópicas adolescentes ficam no passado, não são levadas a sério no “mundo adulto”, e não é porque todo mundo acha ridículo e sim porque você se sente ridículo por pensar/agir desta forma. O mundo muda, as pessoas mudam, e todas aquelas frases clichês que os mais velhos te falam e você não quer dar ouvidos, acabam por acontecer. Isso é mais uma constatação triste.

Quando se é mais novo, não ligamos para aquilo que os “adultos” dizem, pensamos sempre, “serei à exceção desta regra idiota” ou então “regras nasceram para serem quebradas”. Mas não, você não se torna a exceção ou muito menos infringe alguma regra, no muito a lei do silêncio do seu prédio e olhe lá. Você luta de todas as formas, até não conseguir mais, é impossível nadar contra a correnteza. Algumas pessoas se afogam no caminho, outras passam a vida tentando, se esforçando, a cada duas braçadas para frente comemoram como uma vitória, não percebendo que deram oito para trás.

Tornamo-nos mais seletivos, decidimos nos dar o luxo de comermos melhor, nos vestirmos melhor, nos presentear com mimos mais caros. Afinal de contas, trabalhamos exaustivamente a semana toda, isso é o mínimo que podemos fazer por nós mesmos.

O pique juvenil diminui drasticamente, as conseqüências de uma noite mal dormida se arrastam por semanas. Não agüentamos mais aquelas maratonas da época da faculdade que começavam na quinta e terminavam só na segunda  a noite depois da aula. Comer qualquer porcaria no X-Unha da vida, para enganar a fome e dormir só no trajeto do ônibus para casa nem pensar. Você agora pensa duas, três, vinte vezes antes de encarar qualquer balada em plena quarta-feira. Sabe que isso acarretara em problemas sérios no outro dia, como manter os olhos abertos na frente do seu chefe por exemplo. Aquelas viagens em que dormir em qualquer canto já estava de bom tamanho, quando se tinha tempo para dormir, agora se tornaram coisas do passado, você necessita de uma boa cama, e um chuveiro quente depois daquele dia exaustivo. Os “roots” que me desculpem, mas nada melhor que um bom banho quente depois de qualquer trilha no meio do mato.

Tudo isso nos faz perceber apenas uma coisa, estamos quase prontos para sermos colhidos pela safra do grande mundo. Faremos parte desta grande engrenagem que faz o mundo girar, estamos agora em todas as estatísticas como pessoas ativas, economicamente, sexualmente, educacionalmente, doente, entretanto. Então que façamos isso com coragem, desenvoltura, com “espírito moleque” para encarar essa nova fase. Que ela não se torne um fardo pesado que carregaremos pelo resto de nossa vida. Olha a “responsa” falando alto mais uma vez.

Hora de rasgar a fantasia

 

Procurando em minhas memórias, revirando os pensamentos, busco encontrar o motivo pelo qual não gosto de me fantasiar. Seja no carnaval, ou em festa a fantasia, baile de máscaras ou qualquer festividade que o valha. Não tenho disposição nem criatividade para me enfiar em uma roupa mal costurada que irá me cutucar a noite inteira, ou enfiar um penduricalho na cabeça que irá me incomodar a noite toda e não terei saco para carregá-lo durante a festa. Pior, pegando um exemplo dos atuais, essa galera que se pinta de Prateado ou então de azul e vai de Avatar para a festa.

Fui revirar a caixa de fotos antigas de minha mãe para saber o motivo do meu desgosto por esses adereços carnavalescos. Talvez por lá encontrasse alguma foto minha, fantasiado de urso-panda, e tenha me traumatizado. Mas depois de muita poeira, risada e fotos estranhas, encontrei apenas duas fotos minhas, uma fantasiado de índio e outra de palhaço em festinhas de carnaval na escola.

Mas nenhum trauma desta época me veio à mente. Será que engoli muito confete jogado pelos amigos nas matines? Ou então olhos vermelhos e irritados por aquelas espumas malditas espirradas em todas as direções por pessoas que você nunca viu na vida? A resposta também foi negativa.

Com o passar do tempo, fui me tornando um velho ranzinza no alto dos meus 25 anos recém completados. Essa talvez seja a melhor explicação.

Sempre gostei de escola de samba. Não torço por nenhuma, mas gosto de acompanhar os desfiles sempre que posso. Na verdade a bateria da escola é o que me atraia. Os sambas-enredos de um tempo para cá se tornaram fracos, e repetitivos. Não me lembro qual foi o último que se tornou Hit, daqueles que todo mundo canta, como por exemplo, “Explode, coração, na maior felicidade, é lindo meu Salgueiro, contagiando e sacudindo essa cidade”. (Olha eu já criticando de novo).

O Axé saiu das ladeiras do Pelourinho e invadiu o Brasil em todos os meses do ano, antigamente era apenas no carnaval, e depois passava, todo mundo voltava a curtir o seu pagodinho e sertanejo, mas chegava fevereiro e ia todo mundo ralando na boquinha da garrafa.

Talvez não apenas o Axé passou a fazer parte do nosso cotidiano, algumas pessoas ou grande parte delas, esquece de tirar a sua fantasia na quarta de cinzas e passa a carregá-las no resto do ano. Não deixa sua máscara cair, ao invés disso, vai colocando uma em cima da outra, não mostrando realmente a sua verdadeira face. O mundo todo está se tornando uma grande alegoria, sobrepondo os adereços, mas temos que nos lembrar que por trás de peças grandes e suntuosas existem velhas engrenagens que podem se quebrar. Por trás de cada sorriso pintado, existe um coração amargurado, com lágrimas a derramar. Não gosto de me esconder atrás de nada, talvez seja esse o motivo pelo qual nunca gostei de fantasias.

 

Quero para mim!

 

Quero estes olhos para mim,

Só para mim.

Num minuto, segundo, instante talvez.

Mas quero os só para mim.

Não dividi-lo com ninguém.

Deixe-me olhá-los, admirá-los, questioná-los

Como pode dois olhos, me causar tal sensação?

Me tirou a calma, o sono, o sossego

Apenas por tê-lo visto uma vez, a vagar pelas ruas.

Quem dera ter forças para conquistá-los.

Prometo devolvê-los sem machucá-los.

Só quero contemplá-los

Que olhos verdes!

Se não puder mais vê-los, que me arranque os meus.

Castanho sem graça, que não seduz ninguém,

Que não tem porem para ver outro alguém.

Mostrar-me o caminho talvez seja seu destino,

Ou cruzar o meu? Apenas para correr atrás dos seus.

Quero respostas, e quanto mais questiono, mas em dúvida fico.

Façamos um trato, me espere na próxima esquina,

Sem avançar o farol, sem atropelar os pedestre,

Apenas me espere, prometo chegar em breve.

O dia em que perdi meu Herói!

 

Lembro-me como se fosse hoje. Estava dormindo na cama dos meus pais, não me lembro por qual motivo, mas deve ter sido um pesadelo. Ou então eles já fizeram isso de caso pensado, afinal minha irmã também estava dormindo lá. Era sábado, um lindo dia de sábado, sempre íamos a feira com ele comer pastel e tomar garapa, mas neste dia ficamos dormindo. Meu pai e minha mãe retornam com as compras e nos acordam, mas na voz deles, um tom estranho. Algo estranho acontecia naquela casa há algum tempo, mas eu não conseguia identificar o que era. Eis que a noticia veio. Eles estavam se separando. Não entendi nada, no auge dos meus 10 anos, minha mãe me abraçava e chorava, dizendo entre um sorriso e um soluço que agora eu seria o homem da casa. Teria que cuidar dela e da minha irmã. Mas espera como assim meu pai iria embora? Justo ele, meu herói, meu Super-pai. Não poderia ir assim, sair e nunca mais voltar.

Sempre tive uma admiração enorme por ele, desde que me conheço por gente, sempre tiver orgulho. Quando íamos até a empresa em que ele trabalhava, apenas para buscá-lo no final de mais um expediente, lá vinha ele com um sorriso nos lábios e nem deixávamos entrar no carro direito e o bombardeávamos de histórias e perguntas, contava a ele tudo que tinha acontecido durante o dia. Ou então quando ele chegava em casa cansado, mas mesmo assim disputava intermináveis partidas de futebol de botão comigo. Fazíamos campeonatos, e claro, ele sempre me deixava ganhar. Eu achava o máximo, dividíamos os times, sempre por igual, mas eu escolhia a melhor palheta e o melhor goleiro, e nem reclamar ele reclamava, tudo para me deixar feliz. Depois dos jogos íamos a locadora alugar algum jogo de vídeo-game. Eu tinha um Nintendinho 8-bits, e mesmo assim ele ficava lá jogando comigo o dia todo. Ele me comprava figurinhas, sorvetes, me levava para andar de bicicleta. Ensinou-me a torcer pelo Corinthians, quando comecei a ler, eu pegava a parte de esportes e lia todas as noticias, ligava para ele durante o dia apenas para contar. Claro que ele já deveria ter lido o jornal pela manhã, mas mesmo assim ouvia atentamente tudo que eu tinha para falar e ainda dava as suas opiniões.

Agora ele estava lá de pé, em frente à porta, com duas malas, todas as suas coisas, eu não entendia nada daquilo, não me lembro de chorar, parecia que ele iria voltar a qualquer momento. Mas ele nunca mais voltou. Minha irmã e minha mãe sentiram bastante a partida dele, mas a “minha ficha” só foi cair depois, com o passar dos anos. Na medida em que fui crescendo, fui entendendo todos os problemas e o desfecho desta história. As lágrimas delas já tinham secado, mas as minhas começaram a brotar. Passamos um período muito turbulento, ele ficou um ano sem dar noticias, sem ligar para saber se estávamos vivos, depois tivemos que cumprir aquela coisa chata de passar o fim de semana com ele a cada 15 dias. Não tínhamos vontade nenhuma, afinal de contas ele ficou sem dar noticias, porque agora queria nos ver. Imagine no auge da pré-aborrecencia, me tornei um rebelde sem causa, e por algum tempo passei a odia-lo.

Mas ele descobriu um problema no coração e teve que passar por uma cirurgia delicada, um procedimento revolucionário para a época, e os riscos dele sobreviver eram mínimas. Toda aquela raiva passou, quando soube da noticia, afinal eu poderia perder o meu herói para sempre, e esse pensamento me fez perder o sono por alguns dias. Eu já tinha 14 anos e a barra pesava ainda mais, pois minha mãe se desdobrava para sustentar a mim e minha irmã, tinha que protegê-las do pior. Sorte que nada de ruim aconteceu, a cirurgia foi um sucesso, e voltei a admirar a fibra do meu pai.

Quando fiz 18 anos, tomei uma decisão importante, iria voltar a morar com ele. Tinha que fazer faculdade e trabalhar, aprender a ser gente. Então começamos a dividir um apartamento. Por muito tempo parecíamos dois estranhos, mal nos falávamos, só o essencial e assuntos do cotidiano. Voltamos a freqüentar o Pacaembu juntos, ver a nossa paixão, o Corinthians. E isso foi nos reaproximando, restabelecendo os laços entre pai e filho que tinham se rompido. Hoje somos dois amigos, e todo o passado ficou enterrado. Agora só vivemos o presente e planejamos juntos, um futuro tranqüilo, com respeito e admiração mútua.

 

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