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Reflexões Em Um Estádio de Futebol!

Estádio de futebol. Lugar de celebração, festa, alegria. Emoções que transbordam antes da bola rolar. Ontem fui pego de surpresa por uma amiga que não poderia ir ao jogo do Corinthians e me presentou com o seu ingresso.

Lá fui eu rumo ao Pacaembu, que por tantas vezes estive, sempre acompanhado por meu pai, ou amigos, iria desta vez encara-lo sozinho. Já fiz isso algumas vezes, mas ontem, o jogo acabou se tornando secundário. Passei a prestar atenção em cada reação minha durante a partida. Cada vez que comemorei um gol, os aplausos, as vezes que cantei com a torcida, as vezes que falei sozinho, que sorri, que olhei ao redor para me encontrar na multidão. E eu estava lá. Não estava só, não era único que estava assistindo ao jogo sozinho. Cada um com seus motivos, mas sem máscaras, os sentimentos se afloram, e naquele momento você se torna indivíduo no meio da massa. Você não faz mais parte dela.

É engraçado, pois a grande maioria está acompanhada, então não se permite exteriorizar os sentimentos, por medo, vergonha ou qualquer outra coisa que irá sentir de quem o acompanha. Mas quando se está só isso não existe. O momento é de total reflexão e comunhão com aquele acontecimento. Nào importa o resultado da partida, mas sim como aquele acontecimento poderá mudar a sua vida.

Hoje acordei feliz, não pela vitória, mas pela conquista de mais um tijolo na construção de mim mesmo.

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O Pequeno Mark.

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Era uma vez um menino chamado Mark. Único filho homem em uma casa cercada de mulheres. Eram três irmãs mais a sua mãe. Como era o caçula o pequeno Mark sempre sofreu na mão das meninas, tinha que brincar de casinha, salão de beleza e todas essas coisas, sempre sendo a cobaia, provando a gororoba que elas preparavam ou então sendo maquiado e tendo o cabelo escovado e penteado quase que diariamente.

Na escola não tinha amigos. Sempre foi muito reservado e gostava de estudar, por isso aprendeu a recitar poesias e a falar cinco idiomas, dentre eles o hebraico e o latim. Por seu comportamento tímido sofria bullying de seus colegas de classe, tinha seu lanche roubado todas às manhãs e chorava escondido. Após anos sofrendo com isso, prometeu vingança a todos, suas irmãs, colegas de escola e qualquer um que o fizesse sofrer.

Quando teve contato com um computador pela primeira vez, foi paixão a primeira vista, mas como todo caso de amor, não foi fácil, o pequeno Mark sempre era o último da casa que podia fazer seus desenhos no Paint ou escrever textos no Word, suas irmãs passavam horas jogando Paciência e o coitado tinha que ficar apenas esperando a sua vez para poder encostar no mouse. Assim que todos da casa dormiam, ele ia até o escritório para enfim poder ter alguns minutos de tranqüilidade e desfrutar daquela maravilha tecnológica. Foi assim, nas madrugadas frias e quietas que aprendeu a programar e desenvolver softwares. Então percebeu que através do computador o seu plano de vingança enfim a tomaria forma.

Todas as suas frustrações de criança enfim sairiam do papel. O pobre Mark nunca teve um jogo de tabuleiro, pois não tinha com que jogar. Sempre quis ter um War, um Banco Imobiliário, um Jogo da Vida, um Detetive, mas não tinha com quem jogar. Sabedores disso seus pais sempre o presenteavam com suéter e Acquaplays para que pudesse se distrair.

O plano do agora terrível Mark era ousado, criar uma rede social, onde todos pudessem colocar a maior quantidade de informações a respeito de suas vidas, seus hábitos e gostos. Ela se espalharia pelo mundo, como um exército vermelho em um tabuleiro de War, derrotando outras redes sociais, até conquistar a Ásia a Oceania e mais um território a sua escolha. Depois iria capitalizar em cima de seu negócio e poder ter todo o dinheiro do mundo, para comprar tudo que desejasse. Poderia comprar a Vieira Souto, colocar quatro casas e um hotel, se tornar um verdadeiro banco. Sua cartada final seria controlar a vida de seus inimigos sem que eles percebessem, assim como em um Jogo da Vida, giraria a roleta e indicaria quantas casas avançar se iria colocar mais um filho no carro, escolher a profissão e se iria se aposentar e viver com a grana das ações da bolsa.

Parece que seu plano deu certo, seus inimigos estão aniquilados, e ninguém sabe qual será o próximo passo do pequeno e vingativo Mark. Vamos acompanhar.

Nhoque da Fortuna

Hoje o dia começou animado aqui na repartição. Tudo por conta do dia 29 de fevereiro, dia de São Pantaleão. Segundo a lenda, o Santo vestiu-se de andarilho e, ao entrar em uma casa de uma família muito pobre, foi oferecido a ele um prato de nhoque. Mas era tão pouco que foi dividido, resultando em sete nhoques para cada pessoa. Depois de comer, o santo foi embora . Quando a anfitriã retornou, encontrou uma fortuna debaixo da mesa.

Portanto, hoje é dia de comer o Nhoque da Fortuna! Pelo que me explicaram, você tem que comer os sete primeiros nhoques fazendo um pedido para cada. Depois pode saborear o restante. Porém, antes de se iniciar a comilança, é preciso colocar uma nota de qualquer valor embaixo do prato.

Mas, assim como no ano novo, acredito que para a simpatia dar certo temos que fazer uma boa oferenda. Explico. Na virada do ano todo mundo joga flores, sabonetes, perfumes e champagne para Iemanjá. Já repararam que no dia seguinte a praia está uma sujeira só? É claro, ela recusou todos aqueles presentes. Não vai achando que é só ir até a Praia Grande, comprar uma Sidra Ceresér, um sabonete qualquer e uma Alfazema que vai conseguir ter aquele emprego que sonhou ganhar na mega-sena e trazer a pessoa amada de volta. Com o Nhoque da Fortuna é a mesma coisa. Quer ficar rico? Coloca uma nota de 100 Euros embaixo do prato. Ou você acha que colocando dois reais embaixo do prato, São Pantaleão vai perder o tempo dele atendendo seus pedidos?

 Eu já saquei uma onça e vou deixar ali bonitinha… Vai que funciona!

Outro quarto, outro mundo!

Voltando para a minha nova casa, me peguei pensando em quantas vezes nos últimos anos disse “Eu poderia viver dentro do meu quarto tranquilamente. Lá tem tudo que eu preciso”. Hoje eu tenho um quarto, apenas um quarto e com sorte um banheiro.  Não preciso dividi-lo com ninguém. Ao contrário de muitos amigos que conheço que não contam com tal privilégio como eu.  Algumas pessoas não são apegadas a essas comodidades, mas eu ainda sou um espírito em evolução e preciso de um banheiro só meu, talvez possa dividi-lo no máximo com a minha namorada e família. De resto vou me sentir um palestino invadindo Israel.

Chegando em casa, ao abrir a porta e cobrir o pequeno cômodo com os olhos exclamei “quantas vezes falei e ouvi. Posso viver apenas com isso”. Desprezando o resto. Como fiz sempre com a minha velha casa. Tinha sala e cozinha, a área de serviço tinha uma bela vista, dava para ver a Marginal cortando São Paulo e boa parte da Zona Norte, o Playcenter, o Bairro do Limão e mais para longe Santana. Mas poucas vezes fiquei por lá contemplando o nada. A mesa de jantar quase nunca usei, a não ser para jogar o jornal do dia e as correspondências. A rede na sala era algo fantástico, mas conto nos dedos o tempo em que me deitei para assistir tevê por ali.

Passei os últimos 4 anos dentro do meu quarto, de onde conversava com meu pai apenas quando escutava alguma coisa através dos fones. Pensei que viveria por mais alguns anos naquele pequeno mundo, com meus livros, DVDs, a cama e o computador.O típico mundo de um capricorniano. Mas isso é assunto para outro post.

Mas a roda da vida girou e agora após seis meses estou em outro quarto. Que no momento posso chama-lo de meu, pela bagatela mensal de muitas moedas de ouro. Uma cama, um computador, um armário. A casa não é minha, falta liberdade, e privacidade, por mais a vontade que a dona da casa me deixa. Mas faltam os meus copos, os pratos, o sofá e a mesa para deixar as correspondências. Falta a minh’Alma neste lugar. Fincar a minha bandeira e marcar meu território. Fazer xixi no carpete, roer o batente e latir para as visitas. Esta faltando a minha casa.

Posso falar por mim, e aprendi a não medir as pessoas pela minha régua, portanto agora penso, que dei mais importância para algumas coisas e pouca para tantas outras, achando que elas estariam sempre ali ao meu alcance, mas quis o destino leva-las para longe. Algumas eu nunca mais terei e tantas outras terei um longo caminho a percorrer para poder reencontra-las. Estarei pronto para essa caminhada? Só o tempo terá a resposta.

O Homem e sua sombra!

 

Ele acordou. Sentou a pé da cama como fazia todos os dias.

Se espreguiçou e acariciou o cachorro que dormia no velho tapete do quarto.

Sentiu algo estranho, não soube dizer o que era. Tinha o pressentimento que faltava algo ali.

Percorreu os olhos pelo cômodo, mas tudo estava em aparente ordem na desordem da bagunça do seu quarto.

Após o banho rápido, um gole de café e um pão com manteiga.

Mas mantinha a sensação de que algo estava fora do lugar.

Olhou os pés, estava usando meias. Continuou subindo e também checou o cinto.

Todos os botões da camisa estavam ali.

O relógio no pulso esquerdo e as chaves no bolso direito também estavam em ordem.

Então o que faltava?

O dia estava lindo e lá fora o sol brilhava intensamente.

A rua cheia e o trânsito não incomodaram tanto quanto aquilo que lhe faltava.

Por diversas vezes parou diante de vitrines só para ver o próprio reflexo e conferir o visual.

E travou uma luta solitária consigo próprio. E saiu derrotado por diversos rounds.

Não sabia explicar aquela sensação, mas percebeu que durante o dia ele foi apenas uma pessoa.

Sem sorrisos nem tristezas. Quase sem sentimentos. Não se comoveu nem empolgou com nada que tenha acontecido.

Apenas viveu.

Quando cruzou a esquina de casa, ela estava encostada embaixo de um poste.

Percebeu a sua silhueta desenhada e enfim sorriu.

O peito se encheu de estranho contentamento.

Teve vontade de correr e abraça-la. Mas não poderia fazer aquilo.

Apenas se aproximou, e de mansinho seus pés foram se unindo.

Primeiro o direito, depois o esquerdo.

E por toda a rua, debaixo das luzes, foram bailando, uma canção sem som.

Ele e sua sombra.

 

 

 

 

 

Uma nota qualquer!

 

Quando aqueles primeiros acordes saiam da caixa, uma lágrima percorria sua face.

Amava aquela música, tocava todas as noites.

No mesmo velho bar, com os mesmos velhos rabugentos, as mesmas cervejas quentes.

Mas para ele pouco importava, desde o dia em que ela partiu.

Sua vida se resumiu ao seu trompete enferrujado e algumas moedas no bolso.

Seu amigo do contrabaixo ditava o tom, para que ele pudesse entrar em transe,

e assim ficar perto dela, aonde ela estivesse.

Nenhum aplauso ao final, apenas a camisa molhada, o choro misturado ao suor.

Ninguém prestava atenção, mas tocava com o coração, cada sopro, cada nota, uma declaração de amor.

Não bebia, nem fumava. Gostava apenas do clima do lugar. E por lá passou os últimos meses.

Numa noite qualquer de julho, em meio ao frio, e sol maior, um rosto familiar cruzou a porta.

O ar não saia mais, foi golpeado pelo destino. E olha que ele nem acreditava nessa história.

O cabelo escuro continuava a brilhar, os olhos pequenos e cerrados cruzaram com os dele.

Seu colega de palco entendeu o recado, e começou o solo.

Pouco importava, já que ninguém estava ali por causa deles. Mas em respeito aos deuses do blues, ele continuou.

A mão trêmula encostou no seu ombro, e seu coração encontrou o dela. Batendo no mesmo compasso.

Não trocaram nenhuma palavra, apenas bailaram ao som da música até o dia clarear.

No falando rasgado apenas se ouvia “ Everybody Loves the Sunshine…”

Mais Uma Dessas História do Coração – Parte VII

 

Botou o paletó novamente, assim que a música acabou. Lavou o rosto e por alguns instantes encarou o espelho. Pensou em pedir as contas no emprego e partir para a França, morar com ela naquele apartamento, caminhar pela Champs-Élysées até anoitecer, pedalar até o campus onde ela estudava apenas para vê-la deitada embaixo de uma árvore enquanto estuda para a semana de provas. Mas sabia que não poderia fazer isso. Um dia essa vida iria acabar e teria que voltar ao Brasil, a sua vida pacata e sem graça. Decidiu mandar uma mensagem pelo celular, se ela respondesse ele iria atrás dela. E assim o fez: “Olá, tudo bem por ai? Como foi a viagem? Espero que esteja bem. Beijos”. E assim partiu para o trabalho, esperando levar um belo esporro do chefe, pois estava mais do que atrasado.

Quando despertou, sentiu o cansaço da viagem, o corpo dolorido. A preguiça bateu forte e não pensou em desfazer as malas, apenas pegou uma troca de roupa e saiu para comprar alguns pães. Iria fazer compras só na manhã seguinte. Caminhou algumas quadras até um pequeno mercado, onde pegou frutas, leite e um pequeno pão. Seria o seu jantar. Ao retornar, lembrou de ligar para a família, para avisar que estava viva e fizera boa viagem. Abriu a bolsa e não achou o telefone. Procurou na bagagem de mão, mas também não estava lá. O coração começou a bater acelerado, já pensou na hipótese de tê-lo esquecido. “E se ele ligar? Ou mandar uma mensagem?. Vai achar que eu não quero mais vê-lo?”. Neste momento todas as roupas já estavam fora da mala e jogada pela sala. Sentou na velha poltrona perto da janela, e queria gritar de raiva. Como pode esquecer o celular? Não teria como falar com ele, não trocaram e-mail, muito menos sabia o sobrenome dele para procurar na internet. Pegou algum dinheiro na carteira e correu para ligar para casa. Encontrou uma banca onde comprou um cartão para ligações internacionais. Caminhou mais algumas quadras e achou uma cabine telefônica. Falou com sua mãe sobre a viagem, o apartamento e disse que esperava por eles no Réveillon. Antes de desligar, pediu para mandar o celular pelo correio. A mãe questionou se não seria mais fácil comprar outro em Paris. Mas ela não poderia trocar de número. Ele só tinha esse contato. E por alguns dias ficaria sem falar com ela. Só de pensar nisso, sentiu uma insegurança. Estava entrando mais uma vez neste jogo perigoso do amor. Passou o endereço de sua nova casa e disse que era para mandar o mais rápido possível. Sem entender direito, sua mãe apenas concordou e desligou o telefone, desejando sorte e cuidado a filha.

A cada cinco minutos ele olhava no celular, e nada de resposta. Pensou em escrever outra, talvez tivesse dado erro, afinal de contas ele nunca tinha mandado uma mensagem para ninguém fora do pais. Não conhecia ninguém que tivesse mudado de cidade, quanto mais de país. Era tudo tão intenso e novo que o assustava as vezes. Não se importou com as broncas do chefe, que tirou o dia para pegar no seu pé por conta do atrasado. Apenas esperava um resposta que não chegou, nem no final do dia, nem no dia seguinte, muito menos no terceiro. Com o passar dos dias, a expectativa por um sinal de vida dela foi diminuindo e a tristeza foi tomando seu lugar. A rotina diária era sempre a mesma. Chegava em casa, se atirava no sofá, abria uma cerveja, dava o play no aparelho de som, a música tocava em looping até a hora em que ele pegava no sono. Sujo, no sofá. O despertador tocava, então ele pulava no susto, tomava uma chuveirada, botava uma roupa limpa e corria para o trabalho.

Foram quase quinze dias até chegar a encomenda. Assim que ela chegou da aula, abriu a caixinha de correspondência, ritual que passou a fazer todos os dias, e estava lá. Nem leu o pequeno bilhete que sua mãe tinha escrito, apenas ligou o aparelho e ficou encarando-o por alguns minutos. Uma ligação, uma mensagem, qualquer sinal de vida que fosse, e assim aconteceu. Recebeu inúmeras mensagens de amigos e parentes preocupados com a sua demora em mandar noticias, mas no meio de desejos de sucesso e broncas lá estava ela. Poucas palavras que encheram um coração apertado de alegria. Se atirou na cama, e leu, releu, tornou a ler e assim o fez por incontáveis vezes. Queria responder, escrever um texto, contar cada detalhe até aquele dia. Dizer que não o esqueceu, nem por um minuto e que tudo que mais queria era estar com ele em qualquer lugar, no carro dele a caminho da praia, ou em Paris, onde viveriam como dois pombinhos em eterna lua de mel. Mas foi comedida nas palavras, iria esperar uma resposta dele, então escreveu: “ Olá, cheguei bem por aqui, esqueci o cel dentro de uma outra bolsa e ele só chegou agora pelo correio. Espero que esteja bem. Beijos”.

Neste dia, ele saiu mais atrasado do que o normal, e devido aos seus constantes atrasos o chefe estava vigiando os seus horários, então esqueceu tudo em casa, saiu apenas com a chave do carro, sem carteira nem celular. Chegou esbaforido em sua mesa e correndo ligou o computador. Foi quando notou que estava sem nada. Nem dinheiro para o almoço.

Depois de uma faxina rápida no apartamento, ela decidiu jogar a pequena caixa fora, foi então que viu o bilhete de sua mãe, e só então soube da noticia: “ Filha, espero que esteja tudo bem por ai. Aqui está seu celular. Sua prima irá casar daqui três semanas, e mandou avisar que a sua presença é indispensável. Espero que você possa vir passar um final de semana conosco e assim aproveitar para matar a saudades de todos. Com amor. Mamãe!

O semestre estava apenas começando e não haveria problema algum em perder dois dias de aula. Ele apenas teria que responder a sua mensagem, saber que ainda queria vê-la e então ela iria ao casamento, e mais do que isso poderia revê-lo.

(CONTINUA)

Um monstrinho chamado Ansiedade!

 

 

Dentro de mim habita um monstrinho.

Já não sei há quanto tempo ele mora em minhas entranhas.

Mas sinto a sua presença todos os dias.

A cada guloseima, doce, petisco que engulo, ele também se alimenta.

Cada vez que não consigo algo, ele se fortalece mais ainda.

O seu nome? Ansiedade.

Muitas vezes ele me domina, e suga as minhas energias.

Me derruba, como um Davi derrotando Golias.

A sua arma? A espera.

Só me fazer esperar, esperar e esperar.

Nada me deixa mais fora do controle do que esperar.

Muitas coisas nessa vida não chegam em nossas mãos no tempo que gostaríamos.

Dai o monstrinho ganha forças, e sorrateiramente me derruba, com um único golpe.

Sei que no alto daquele monte, o mais alto da cordilheira, um velho sábio guarda um segredo.

A arma secreta que conseguirá aniquilar o tal monstro de uma vez por todas.

O nome dela? Paciência.

Para chegarmos até ele, é necessário escalarmos morro acima, rocha por rocha.

Sem esmorecer e nem olhar para baixo.

Assim que cruzarmos as nuvens, estaremos na metade do caminho.

Só assim conseguiremos alcançá-lo.

Mas eu ainda estou no pé da montanha, e tenho um longo caminho pela frente.

 

Mais Uma Dessas História do Coração – Parte VI

 

 

Ela acordou com a aeromoça pedindo para voltar a poltrona à posição normal, pois o avião iria aterrissar. Esforçou-se para abrir os olhos e viu o sol refletir na asa do avião. Uma linda manhã de outono a esperava. Assim que os pneus tocaram o solo, seus pensamentos a levaram para o Brasil, do outro lado do oceano, agora não teria mais volta. Envolveu-se quando não devia, mas quem controla o coração? Pensou ela. Se tudo desse certo, ela poderia vê-lo assim que retornasse para casa.

O porteiro apenas entregou o envelope quando estava saindo para o trabalho. Pela letra delicada sabia que era dela. Apalpou antes de abrir para tentar adivinhar o que continha a carta. Uma letra tremida, o nervosismo se fazia presente nas palavras. Apenas uma linha escrita, um bilhete de despedida:

 

“Você foi a melhor lembrança que poderia trazer do Brasil. Espero poder revê-lo um dia”.

Beijos.

Dentro do envelope também tinha um cd. Gravado por ela também, escrito apenas “You’ve Got The Love”. Ele voltou para casa, subiu as escadas correndo, foi até o aparelho de som e botou o disco para rodar.

O som invadiu a pequena sala, ele acendeu um cigarro e ficou olhando pela janela, como se quisesse vê-la em Paris. Bem que tentou forçar a vista, mas o que viu foi apenas uma empregada limpando as vidraças de um prédio ao longe, e o trânsito da grande cidade pulsando pelas ruas estreitas.

Abriu a porta do apartamento que iria ficar, um pouco distante do centro da cidade, mas perto da universidade. Não queria fugir do seu plano inicial, por isso escolheu aquele lugar, pequeno, aconchegante e silencioso. Também pudera, já estivera em Paris uma dezena de vezes, o intuito agora era estudar e ser uma nova mulher. Por isso decidiu morar sozinha, sem empregadas nem o luxo que tinha na casa dos pais. Colocou as malas próximo ao armário e se jogou na cama. Antes de adormecer pensou no que ele estaria fazendo. Será que recebera sua carta? Estaria ouvindo a música que tinha gravado? Entendera o significado da letra? Com essas perguntas na cabeça pegou no sono, sem se preocupar em fechar a porta da nova casa.

You’ve Got The Love

Sometimes I feel like throwing my hands up in the air
I know I can count on you
Sometimes I feel like saying “Lord I just don’t care”
But you’ve got the love I need To see me through
 
Sometimes it seems that the going is just too rough
And things go wrong no matter what I do
Now and then it seems that life is just too much
But you’ve got the love I need to see me through
 
When food is gone you are my daily meal
When friends are gone I know my savior’s love is real
Your love is real
 
You’ve Got The Love
Time after time I think “Oh Lord what’s the use?”
Time after time I think it’s just no good
Sooner or later in life, the things you love you loose
But you got the love I need to see me through
 
You’ve Got The Love
Sometimes I feel like throwing my hands up in the air
I know I can count on you
Sometimes I feel like saying “Lord I just don’t care”
But you’ve got the love I need to see me through

 

(Continua)

 

Mais Uma Dessas História do Coração – Parte V

 

O celular apitou. Uma dezena de chamadas não atendidas até então. O relógio marcava 15:40. Não queria sair da cama e ter a certeza que era o chefe ligando. O interfone toca no mesmo momento, mas decide não atender. Encarando o teto mal pintado e descascando, começa a se lembrar do que passara na última noite. Apenas caminhou para o banho, atirou as roupas molhadas em um canto e ligou o chuveiro. A água morna caia suave sobre seu corpo. Suave como aquele beijo, o perfume que ainda estava impregnado em sua pele, as lembranças registradas na retina. Fechou os olhos. Tentaria não pensar em mais nada, sairia pela rua encarando tudo e todos, a fim de esquecer aquele rosto. Mas era traído a todo instante pelos pensamentos. O estomago era agredido constantemente, e como um soco, o tirava o ar, cada vez que se pensava nela.

Os avós fizeram questão de vir do interior para se despedirem da neta. Essa não era uma viagem qualquer, e tinha certeza que encontrariam uma nova mulher dali seis meses. Almoçaram todos juntos, como há muito tempo não se fizera naquela casa. Até a irmã fez questão de servi-la como nos tempos de criança. Estavam todos felizes com a decisão. Depois de tantos problemas e confusões nos últimos anos, era a hora da filha caçula “se tornar gente grande”, como o pai vivia dizendo por ai. No final da tarde partiram para o aeroporto, iria pegar o vôo noturno e chegaria em Paris pela manhã bem cedo. Sem que todos percebessem entregou um envelope ao motorista, com ordens bem claras. Apenas entrega-lo quando o avião estivesse sobrevoando o Atlântico.

Abriu a geladeira, a luz interna piscou algumas vezes, estava com defeito, mas ele sempre esquecia de troca-la. Frutas, algumas fatias de queijo e água. Era o que tinha a sua disposição. Esse foi o seu almoço. Decidiu não sair de casa. Em silêncio pegou tudo que estava lá dentro e calmamente encarando as roupas penduradas na área de serviço foi comendo uma a uma, deixando o queijo por último. Caminhou até a janela, encarou as nuvens cinzas daquele começo de noite, entre um gole de água e uma tragada no cigarro decidiu pegar o celular. Nenhuma ligação. Apenas números do escritório na lista de chamadas não atendidas. Percorreu os prédios com o olhar, mas desejava mesmo saber onde ela estava naquele momento. Não sabia o horário do vôo, por isso desistiu de ir até o aeroporto. Ligou para o número que estava no cartão, aquele do primeiro encontro na livraria. Chamava até entrar a gravação da caixa postal. Ficou escutando atentamente aquela voz, naquele momento era a única música que gostaria de ouvir. E quando o apito soou para gravar uma mensagem, ele desligou. Apagou o contato de sua agenda, e pensou em queimar o cartão com o isqueiro, chegou a botar fogo, mas antes que a chama queimasse o primeiro número, desistiu. Sem olhar, pegou na estante um livro. Abriu e pôs o cartão dentro. Era um de Neruda, naquela página um poema grifado a caneta, que chamara a atenção dela há muito tempo:

 

Dois…
Apenas dois.
Dois seres…
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente…
…Sempre…
…A se olharem…
Pensar talvez:
 “Paralelos que se encontram no infinito…” ·No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

 

(Continua)

 

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