Arquivo mensal: dezembro 2010

Superar os Medos!

 

Quando criança, muitos foram os meus medos. Das lendas urbanas como, Loira do banheiro, palhaço da Kombi (reza lenda, ficavam na porta das escolas, oferecendo doces para as crianças, com isso conseguiam seqüestra-las e vendiam seus órgãos no mercado negro) até as mais bizarras, do Gil Gomes (tinha medo da voz dele) medo de cachorro e do escuro, não conseguia dormir com a luz apagada. Tais medos foram superados com o passar dos anos, menos o da Loira, não dou descarga três vezes seguidas.

Outros medos foram substituindo os antigos, agora tenho medo de altura, de ter uma parada cardíaca, de ser atingido por um raio, ou um viaduto desabar enquanto estou transitando por ele. Até os mais bobinhos como ser abduzido ou encontrar um espírito quando abro a porta de casa.

Quem nunca teve medo de nada? Não acredito muito nessas pessoas que se dizem fortes, não temem os espíritos, nem os palhaços das kombis, muito menos as baratas. É natural, sentirmos um desconforto quanto ao desconhecido, isso é o que nos causa medo em algumas situações. Depois chegamos até mesmo a rir em lembrar de todo o terror que já passamos por uma coisa tão besta.

O medo sempre irá existir, ele nos faz crescer, buscar o confronto, enfrenta-lo. Temos que encarar como um desafio, desde uma mudança de emprego, até uma simples e indefesa aranha que cruza o nosso caminho. Quando deixamos de temer algo é porque estamos vivendo uma rotina, na zona de conforto, é hora de sair da inércia e seguir em frente, sem estacionar a vida.

Que venha a loira do banheiro!

 

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Reticências!

 

Nunca vi três pontinhos atrapalharem tanto a nossa vida como essa tal de reticências. Tanto na linguagem oral quanto escrita, o silêncio por ela causado, nos deixa em estado de angustia tão grande quanto um ponto final. No ponto a idéia está cravada, assunto encerrado. Já com ela não, o suspense se espalha pelo ar, você quer saber a continuação daquela frase, da história, tudo fica perdido nas entrelinhas. O cérebro cozinha de tanto pensar e às vezes nunca sabemos o que aqueles três pontinhos possam ter significado.

Nesta vida, quantas vezes usamos esse sinal? Para encerrar uma briga, para não dizer aquilo que gostaríamos, para não magoar um coração, para se desculpar, para omitir os nossos próprios sentimentos, tantas coisas definidas por apenas três pontos. Isto está se tornando um hábito do ser humano, todos estão se escondendo, ficando cada vez mais sufocados por eles, não se vê mais a verdade, a vírgula ou o ponto final. Exclamação então nunca mais se viu por ai, só bradados nos xingamentos pelas ruas, no trânsito em uma fila qualquer. Quero usar mais a interrogação. Questionar, perguntar, conhecer, usar as aspas para dar referências, o travessão para falar e pedir a palavra. Procurar deixar no subentendido apenas aquelas conversas gostosas ao pé do ouvido. Vamos nos pontuar neste mundo, nada de asteriscos, apenas acentos, vírgula por vírgula, todos os pingos nos is.

Não deixe mais a reticência te chatear te encurralar em um canto. Coloque um ponto final nas histórias atravessadas, nas mal resolvidas e comece a escrever um novo parágrafo da sua vida na linha debaixo.

Pedro e as Meias Coloridas

 

Pedro abriu a gaveta, olhou, analisou, pensou e decidiu. Iria de laranja na direita e amarela com listras vermelhas na esquerda. Sua gaveta de meias era assim, não existiam pares, apenas cores, uma mais espalhafatosa que a outra, e ele gostava de usá-las desta forma. Sempre fora assim, desde pequeno, escolhia o que iria usar no pé direito, depois no esquerdo e estava pronto. Não saia de casa sem suas meias, poderia ser de sapato, tênis, calça ou bermuda. Sem se importar, mas tal desleixo era apenas nos pés, pois Pedro sempre fora um menino bonito, asseado, de cabelo penteado e banho tomado. O uniforme da escola estava sempre lavado, dona Rosa a empregada que o levava a pé ao Grupo Estudantil tratava de deixar tudo “um brinco” como ela costumava dizer. Embalara o garoto desde os tempos da mamadeira, o tratava como um filho, só não entendia a fixação por “meias de palhaço” do menino.

Na escola o garoto sofria, sentava isolado em um canto, não entendia o porquê seus amiguinhos não o chamavam para participar da brincadeira, tiravam sarro das cores de suas meias, justo eles, que sempre usavam aquelas coisas brancas, sem nenhuma listra ou cores. Quem eram eles para falar das estampas? Pensava o triste Pedro. Assim passara o tempo até o dia que encontra Mariana, uma linda garotinha, que acabará de se mudar para o colégio, vindo de outra cidade. Foi paixão a primeira vista, ou meias, como ele mesmo pensou. A pequena ruivinha, com sardas no nariz e bochecha, aparece de vestido rendado, no pé esquerdo uma meia roxa, no direito amarela com listras horizontais azuis. Os olhos de Pedro brilharam como nunca ocorrera, neste dia, ele usava uma meia verde com bolinhas vermelhas e preta com listras brancas. Os dois se abraçaram, e correram pelos corredores como se não houvesse fim. Os amigos Guga, Faísca e Piolho já não conseguiam mais irritar Pedro, que só tinha olhos e meias para a pequena Mariana. Eram unha e carne, meia e sapato como a velha Professora Jeovina dissera para os pais do novo casal que se formou na escola. Não eram namorados, eram cúmplices apenas do mesmo segredo, passavam as aulas juntos, sem os tênis, correndo por ai exibindo suas cores e estampas para quem quisessem ver.

As férias do meio do ano chegaram, Pedro e Mariana ficariam trinta dias sem se ver, nem se falar, pois ela voltaria a Passos de Minas para visitar os parentes, e ele iria para Caraguatatuba, na casa do avô Genaro, pai de sua mãe, que estava muito doente e precisara de cuidados. Lucia sua mãe já sabia de tudo, uma mala era para as roupas e outra para as meias. Ele não viajava sem levar todas, gostava de escolher conforme o seu humor, e assim foi rumo ao litoral.

No retorno as aulas algo inusitado aconteceu, todos os garotos da sala de Pedro estavam com meias coloridas. Seria a nova moda, eram misturas muito engraçadas, xadrez, listras horizontais, verticais, amarelo com preto, roxo com azul, verde com rosa. Mas todos estampavam um sorriso no rosto, parece que entenderam durante este tempo de férias o sentido do colorido da vida, e na porta da sala esperavam o garoto que começou com esta idéia, Faísca era o mais empolgado e desfilava na frente das garotas o seu par em xadrez e listras vermelhas. Eis que Pedro sobe o último degrau da escada que dava ao corredor da sala. O burburinho é geral, todos saem pelas portas para ver aquela cena jamais presenciada. O garoto estava com um simples e modesto par de cores brancas. O silêncio tomou conta do lugar, podiam-se ouvir os passos lentos e pesados do menino, triste, cabisbaixo. Ninguém sabia até então, mas seu avô Genaro falecerá naqueles dias, justo ele que Pedro admirara tanto, que o ensinou a jogar taco, empinar pipa e pescar, durante as férias que passavam juntos na praia. Como por sintonia, naquele momento Mariana também aparece na escada, e desta vez o prédio desaba, a garota também está com meias brancas. Todos se entreolham não acreditando naquilo. Ela segura a mão de Pedro, e sem falar nada ambos caminham em direção a sala de aula. Os amigos entendem o recado, tiram as meias e voltam descalços para os seus lugares.

Minha Vida Nesta Década!

O ano era 1999, mais precisamente dia 31 de dezembro. Quase meia-noite e estávamos todos indo em direção ao mar. Passar a virada do ano, na praia sempre foi o ritual da minha família, e desde de que me lembrava ser gente, via a queima de fogos lá. Mas aquele ano era especial. Eu tinha 14 anos, e o místico ano 2000 estava prestes a aparecer diante de nós. De Nostradamus a “Padinho Ciço”, todos esperavam os Sete Cavaleiros do Apocalipse irrompessem os céus quando tocassem as doze badaladas.

Nada disso aconteceu, pulamos sete ondinhas, estouramos champagne, fogos espocavam e coloriam o céu, e eu lá olhando para o alto, esperando um meteoro, um anjo caído ou qualquer outra criatura descrita nas profecias célticas. Mas eles não apareceram. Assim começou o novo século, o Bug do milênio, não afetou os computadores como previsto, e o mundo amanheceu cheio de esperanças, e eu também, afinal de contas, eu estava me formando na oitava série e com ela viria a viagem de formatura e todos os planos que o auge da puberdade nos permitia.

O Mundo continuou a girar, e deu sinais de apocalipse com os atentados de 11 de setembro. Neste ano eu já trabalhava na fábrica do meu tio, e começava a me preocupar com a faculdade, a penugem no rosto começava a aparecer e o século XXI dava sinais de grandes mudanças.

O Brasil ganhou a sua quinta estrela no futebol, e eu ganhei à primeira no meu coração. Sempre fui um garoto muito do lerdo e não tenho vergonha de admitir isso, neste segundo ano de década nova eu beijei na boca pela primeira vez, e assim foi a primeira vez que pensei gostar de alguém e também chorei por ela. Ano que comecei a sair com os amigos para as matines e descobri uma das paixões que carrego até hoje, música eletrônica e toda sua psicodélica. A internet, contada a pulsos telefônicos me aproximou do mundo, estive presente em todos esses movimentos, e o “espírito revolucionário” encarnou em mim com a derrubada do Napster, e com ele decidi que melhor do que ter o mundo é poder compartilhá-lo com todos. Madrugadas adentro em bate-papos com os amigos pelo ICQ, depois MSN, músicas baixadas a 0,01kbps e assim passaram-se os anos até a chegada da banda larga.

Em 2004 a chegada do Tsunami causou um reboliço no mundo e na minha vida. Acabará de completar dezoito anos, e a pequena Boituva, cidade na qual passei parte da minha vida, estava cada vez menor para mim, então atrelado a um novo amor e um mundo que me esperava, decidi voltar a São Paulo. Faculdade, carteira de motorista, trabalho de gente grande eram alguma das coisas que me esperavam neste turbilhão como o Katrina que arrasou os EUA. Ser turismólogo era minha nova obsessão, trabalhar com turismo e para o turismo e assim dediquei quatro anos desta década, até me graduar ao final de 2007. No ano seguinte a dengue se alastrou pelo Brasil e deixou o país em alerta, mas o mosquito que me contaminou foi o das viagens. Foram pequenas viagens em 2008 para os países vizinhos, como Argentina e Uruguai, e alguns cruzeiros, mas o suficiente para me despertar a vontade de conhecer o mundo.

Esta década chega ao fim, o mundo não acabou, mas quase, algumas tragédias, desastres naturais, as guerras que os EUA causaram, o aquecimento global e tudo o mais, mas continuamos aqui, firmes e fortes. Para estes próximos dez anos, promete-se um fim do mundo em 2012 segundo o calendário Maia, mas caso isso não aconteça, sediaremos uma Copa do Mundo e um Jogos Olímpicos realizados aqui no Brasil. O dólar entrará em colapso, o Real será uma das moedas mais fortes, erradicaremos a pobreza, produziremos carros não poluentes, exploraremos o pré-sal, acabaremos com a criminalidade e a violência. Eu conhecerei ao menos alguns paises da Europa, terei um emprego onde possa ganhar dinheiro, terei o meu trabalho reconhecido, conquistarei mais amigos, manterei os que já tenho, compartilharei todo o meu pequeno conhecimento, e voltarei aqui para contar.


Carta ao Papai Noel!

 

Querido Noel,

 

Não me recordo a última vez que te escrevi uma cartinha, talvez deva ter sido na época da escola lá pela segunda ou terceira série, e desde então você passou a deixar os presentes com os meus pais, para que eles pudessem me entregar, e quando eu cresci você começou a depositar o dinheiro na minha conta para que eu mesmo comprasse o que eu quisesse. Mas envolvido por este espírito natalino, resolvi te escrever. Sei que está meio em cima da hora, deveria ter postado esta carta antes, mas o que vale é a intenção, acho que o senhor como bom velhinho que é conseguirá atender ao meu pedido. Este ano a minha lista é um pouco simples então acho que não terá problemas. Na verdade é uma lista de agradecimentos por todos os presentes que me colocou no caminho durante este ano.

Agradecer pelos problemas, pois me fizeram enxergar as minhas limitações, superar as dificuldades, pedir ajuda quando precisei, e enfrenta-los. Agradecer pelo sofrimento, que me fez mais forte, me vez ver o mundo como ele realmente é. Agradecer pelos desafios, me fez pensar grande, querer vencer e fazer tudo de novo. Agradecer as lágrimas, me lavaram a alma e desafogaram os corações. Agradecer as olheiras, me fizeram rir, aproveitar os amigos, curtir a vida da forma que ela realmente merece ser vivida. Agradecer ao cansaço, me fez valorizar o trabalho, a labuta e saber que dele tiro o meu sustento. Por último agradecer pela família, que se nada der certo, me deu base e sustento para que eu possa encarar tudo de novo e saber que eles sempre estarão por perto para me apoiar.

Que o senhor possa deixar embaixo da minha árvore todos estes presentes novamente para o próximo ano.

 

Muito Obrigado!!!


 

 

Platônico, piegas e clichê.

Continuo minha saga, sobre esta vida que nada tem de atraente, a não ser o fato deu ser um estranho. Falo isso porque não quero bancar o diferente, o do contra, criticar aquilo que todo mundo gosta apenas por criticar. Sinto-me diferente, porque como postado ontem sempre saio de casa esperando o acaso, destino ou sei lá o que aprontar alguma peripécia comigo. Sei que isso nunca irá acontecer, mas ainda tenho aquela sensação lá no fundo, que o jogo pode virar a qualquer instante. Acontece sempre nas novelas, nos filmes, nos livros, porque não na vida real? Está bem vida real é diferente, “jogo é jogo treino é treino” como dizem no futebol.

 

 

Mais uma das minhas maluquices, ou sei lá qual nome dar para isso, é o simples fato de me apaixonar diariamente. (Está bem, não é bagunçado assim também, não é qualquer uma que eu vejo que já falo “Wow” Essa é a mulher da minha vida). Mas na minha cabeça, aquela garota que atravessa a rua, poderia muito bem ser a mãe dos meus filhos, se o sorriso é retribuído então, nossa, já imagino as nossas tardes no sitio, as crianças correndo pelo quintal brincando com os cachorros. A menina no metrô que senta ao meu lado então. Já nos imagino pelas livrarias do mundo, tomando café naquele fim de tarde e discutindo sobre os mais diversos assuntos. Paixões Platônicas sem explicação aparente, pelo simples fato do gostar de alguém, do querer bem, amor por amor. Talvez eu seja um eterno apaixonado, paixão por ninguém, ou por alguém que ainda não encontrei, ou encontrei e perdi. Isso eu já não sei dizer. Um tanto quanto piegas e clichê, também já me falaram isso, mas não posso fazer nada. Gosto disso, de poder ouvir uma música e viajar, imaginar o mundo, sentir um perfume e surgir à imagem daquela pessoa que você nunca viu, mas sabe que ela existe e te espera. Enfim, verei o que me aguarda na próxima fila do supermercado.

Síndrome!Do que eu não sei!

Não sei quando isso começou, talvez quando criança, ou na adolescência e toda aquela coisa de hormônios e garotas, sei que possuo um hábito que carrego há anos, e às vezes me pergunto quando começou. Desde a primeira menina que gostei até a que gosto atualmente hoje, faço tudo, como se fosse encontrá-la por ai.

É uma coisa bizarra, saio do banho, e já penso em qual roupa irei colocar, para poder “impressiona-la”. Se ela gostará da combinação, do perfume que estou usando, se o cabelo está bom e coisas do tipo. Fico imaginando N situações, que poderiam ocorrer. Coisas fora do comum mesmo, como por exemplo, abrir a porta de casa e ser surpreendido por ela, correndo em direção aos meus braços e dizendo que nunca sentiu tanto minha falta. Até mesmo avista-la no ônibus, no metrô, na porta do meu trabalho, na fila do cinema.

O mais bizarro é que sei que isso nunca irá acontecer, mas mesmo assim, me visto para tal ocasião, faço tudo de forma premeditada, afinal de contas ela pode estar atrás daquela coluna me espiando, ou do outro lado da rua a me observar. Espero ser o único que sofra de tal síndrome que nem sei qual nome dar, talvez mania de perseguição apenas, talvez carência, talvez tudo isso misturado. Posso afirmar amigos com toda certeza ela está neste momento  me vendo escrever este texto.

Contabilizando 2010

Mais uma vez volto para falar de final de ano. Como sou viciado em música acompanho todas as listas especialidades, “melhores/piores do ano”, “capas de discos”, “quais as promessas para o ano que se inicia”, “o que escutar” e toda essa enxurrada de noticias que nos brindam neste mês de dezembro.

Quero também fazer a minha lista, listar tudo que levarei deste ano e no final o que me embalou durante estes até agora, 350 dias até o momento, tudo que tocou no meu Ipod, bandas novas e velhas passaram por aqui, sons clássicos e outros fresquinhos alguns do underground e outros de gosto populares. Ouvi muita coisa boa este ano, mas as “Cinco que mais tocaram relacionarei no final do texto”.

Mas voltando a minha pequena lista, foram 6,897 twittadas (acho o twitter a melhor rede social do momento), novas amizades conquistadas, antigas refeitas e outras tranqüilizadas. O blog agora está com 23 posts, 19 comentários e mais de 200 pessoas já passaram por aqui (olha que era apenas um espaço para desabafar, e divagar, prometo que continuará assim). Ganhei novos machucados na pele, muitas cicatrizes, algumas internas. Em média foram 11horas online por dia, o que dá quase 3850hs ao longo deste ano. Um vicio que não me impediu de aproveitar a vida. Algumas idas a praia, finais de semana no interior com a família, baladinhas poucas mas divertidas, shows também, mas bons, lembro de Cachorro Grande, Lobão, Mombojó dos nacionais, Planeta Terra com Phoenix e Massive Attack nos interernacionais. Perdi a maioria, tentarei não perder no próximo ano, mas essa é uma promessa para 2011 (xiiii já falei sobre isso outro dia…).

E vamos a minha lista:

Trepax – Rainbow (Naji Nahaz Remix)

Passion Pit – Sleepyhead

Stereophonics – Maybe Tomorrow

Phoenix – Countdown

Air – All I Need

 

Poesias, Citações e Secretárias Eletrônicas

Todos os dias o ritual era sempre o mesmo, abria a porta do apartamento, pegava as contas deixadas debaixo do tapete e sem acender a luz as atirava em cima da mesa da cozinha, se dirigia ao telefone, apertava o redial, o número já estava gravado na memória, cinco toques e ninguém atendera, até que aquela voz que ele ouvira durante tanto tempo começava a recitar o poema da secretária eletrônica: “Você me ligou, mas no momento não posso atender, deixe seu recado e assim que puder entrarei em contato”.

Todos os dias o enredo que se passara no apartamento 92 da rua 35 com a 4ºavenida  fora sempre o mesmo. Até que em um belo dia, ele pega no fundo daquela velha gaveta a caixa que guardara todas as cartas que trocaram durante o tempo que passaram juntos. Repete o processo, pega o telefone, pressiona o redial, espera os cinco toques, a secretária, então ele aperta o play no aparelho de som, e ao fundo, a música que os embalou por tantas e tantas noites, “… Sometimes I feel like throwing my hands up in the air, I know I can count on you…”, ecoa pelas paredes. Ele então se senta em um canto, tira uma carta da caixa e sem saber qual era, começa a recitar o que nela está escrito, era um trecho de um poema de Alexandre Pope:

“Feliz é o destino da inocente vestal
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Toda prece ê ouvida, toda graça se alcança.”

Em seguida arremessa a carta longe, e pega mais uma, e nela se pode ler um trecho de Pablo Neruda, que ele recita ao fone:

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra”.

Poemas que tanto declamaram um para o outro, já faziam parte do cotidiano daquela conturbada vida amorosa. Mais um gole naquele vinho barato, e mais uma carta arremessada. Decide então terminar, mas antes pega uma última carta, nela continha um trecho de uma citação de Fernando Pessoa que dizia:

“Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”

Então ele já quase sem voz, se dirige para desligar o aparelho, começa ouvir do outro lado da linha aquela voz doce. Como uma flecha irrompendo o viva-voz aquilo o atira direto ao chão, já sem conter as lágrimas, ele se rasteja até o telefone e cola o ouvindo no pequeno auto-falante, fazendo com que cada palavra preencha seu atormentado coração. E aquela voz agora sussurra aqueles versos de Mozart que ele tanto gostará de ler em seus lábios:

“Ainda que outro alguém o tenha
entre lençóis confidentes,
mesmo que os beijos sejam molhados
e quentes,
à parte, nossa alma vaga enamorada,
sobre qualquer prazer da carne ou qualquer
entrega fugaz”.

E em seguida a citação de Edgar Allan Poe que ele encontrou pichada em um muro perto da casa dela, e decidiu escrever na contracapa de um livro que acabará de presenteá-la:

“O fim da dor nos faz duvidar que tenhamos realmente amado”.

Ao fundo ele pode ouvir também a mesma música, o refrão se repetir “… You’ve got the love, You’ve got the love, You’ve got the love…” E o telefone sendo colocado no gancho.

 

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