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Por uma vida menos integral!

Esta semana estava sem vontade de almoçar, então fui a uma doceria que fica perto do meu trabalho a fim de comprar algumas besteiras para comer durante a tarde na hora que a fome batesse. A oferta de guloseimas é sem fim, desde dip n’ lik, passando por tubos de pringles até barras gigantes de kit-kat. Mas fui objetivo e peguei apenas um pacote de Fandangos de presunto, o meu favorito desde criança, um pacote de trakinas de morango, outro xodó dos tempos de escola e alguns dadinhos e guarda-chuvas de “chocolate”, daqueles bem vagabundos, que o mais próximo do chocolate que aquilo tem, deve ser o apelido do operador da máquina que embala os doces. Mas compra feita, voltei para o escritório todo feliz da vida onde teria uma tarde cheia de açúcares e gordura.

Comecei a reparar nas novas embalagens e já fiquei intrigado, na do salgadinho estava em letras enormes “Sem gordura trans” e na da bolacha a receita mudou e agora contém farinha integral no biscoito. Abri o pacote e biscoito continuava apetitoso como antes, ao menos era o que me parecia antes de colocá-lo na boca. O gosto de farinha já me deixou com vontade de jogá-lo fora, falta de educação seria oferecer aquela coisa horrível para alguém. Tentei comer mais um para ver se não era problema do paladar. Cheguei a consultar a validade, mas ainda faltava mais de um ano para vencer. O problema era a tal da farinha. A fórmula da bolacha que por muitas manhãs me alegrou foi alterada, sem consulta aos consumidores, o que chega a ser um desrespeito. Tais questões em um mundo perfeito deveriam ser convocadas um referendo nacional e decidirmos nas urnas se mudariam ou não à receita original.

Decidi partir para o Fandangos, esse seria menos inofensivo, agora ele era assado, ao invés de frito, o que faria muito bem para o meu colesterol, que não sei a quantas anda, mas isso é uma coisa que só irei me preocupar quando for um homem 3D, ou seja, três dígitos na balança, de resto continuarei a minha vida se me preocupar com isso. Abri o pacote e percebi que o salgadinho realmente estava mais seco, na ponta dos dedos já não ficava mais grudado o farelo, que contrariando nossa boa educação enfiávamos na boca e lambíamos tudo, sem deixar o menor vestígio de sal ou gordura. E assim comi o saco inteiro e Não foi surpresa nenhuma não encontrar mais aquele farelo delicioso no fundo, aquele que esticávamos o saco e inclinávamos a cabeça para trás e ele escorregava maravilhosamente para dentro da nossa boca e passando e depois de engolir passávamos a língua nos lábios, como sinal de saciedade. Só me restou os dadinhos e os guarda-chuvas de chocolate, esses não poderiam me desapontar. Eles permaneciam mal embalados, e isso era um bom sinal, os cabinhos continuavam com rebarba, feito com aquele plástico bem ruim, e que mesmo assim ficávamos mascando incansavelmente depois de comer o chocolate. Quando abri o primeiro dadinho percebi que ele estava mais claro, mais pálido, quase sem vida. Pensei que talvez fosse apenas por estar velho, mas não, definitivamente não. A geração saúde chegou até a fábrica de dadinhos. Ele esta agora sem gosto, sem gordura, sem nada. O espírito saudosista estava ganhando força e esse é um que eu gosto de deixá-lo bem escondido, não gosto de viver de passado. Mas foi um golpe duro demais para mim, uma seqüência de chutes e socos que me senti o Belfort apanhando do Anderson Silva.

Para minha sorte, aqueles pequenos chocolates mantiveram suas raízes, o gosto de gordura saciou meu paladar e ao menos pude ser feliz em alguns segundos. Tamanha frustração foi o meu almoço. Justo eu, que acredito que um dos poucos prazeres dessa vida é justamente esse, poder saborear uma boa comida, com todos os ingredientes que compõem o figuro, não poderia estar vivenciando aquilo. Me vem logo à cabeça um mundo cheio de pílulas iguais as de astronauta, comidas cada vez mais sem gosto, sem vida.

Culpa de quem? Dessa geração saúde, viciada em barrinhas de cereais feitas de serragem com granola, que passa a vida comendo sementes e folhas, e faz o paladar esquecer o sabor da vida. De uma picanha bem suculenta, com aquela capa de gordura, ou então de uma macarronada com muito queijo ralado. Trocam tudo isso por um prato de alface e chicória, e uma porção de frutas secas. Sacrifícios para alcançar um corpo perfeito, e exibi-lo por ai como se exibem os frangos que ficam a girar nas padarias de domingo.

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