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Cavar!

Decidi cavar um buraco e nele me enterrar,

Mas antes o fundo do poço desejei encontrar.

Joguei muita terra para cima, até o sol não mais enxergar.

Mesmo assim não estava satisfeito, e pá atrás de pá eu tratei de cavar.

Silêncio. Nenhum bicho a grasnar.

Acho que agora o caminho consegui alcançar.

Um lugar no mundo, mudo. Onde não há ninguém a falar.

Foi esse silêncio que vim buscar.

Senhor diabo, faça o favor de me dar.

Aceito minha alma trocar.

Só por um momento me faça escutar.

O tique-taque do relógio a rodar.

Sei que isso está parecendo a velha a fiar,

Mas para algum lugar esse buraco terá que me levar.

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O Fim do Mundo e as Promessas de Fim de Ano

Imagine acordar no dia 21 de dezembro de 2012. O tão esperado dia do fim do mundo segundo o calendário Maia. Você se levanta, toma banho, escova os dentes e prepara o café da manhã. Olha pela janela e o sol brilha intensamente no céu azul como brilhou durante todos esses anos. Sai para o trabalho, cumprimenta o Francisco na portaria, e a vida segue a sua rotina, apesar daquela sensação estranha que essa história de fim dos tempos causou durante anos. Você ouve algumas piadas sobre o assunto durante o trajeto até chegar ao escritório. Chega até olhar duas vezes para atravessar a rua, vai que esse seja o dia do seu fim do mundo. Mas nada anormal acontece. A não ser o seu chefe que está com a cara da besta, inclusive soltando fogo pelas ventas, até parece que os anjos do apocalipse passaram por lá.

O dia transcorre naturalmente e por muita vezes você esquece que aquele seria seu “último” dia na Terra. O relógio marca cinco minutos para o final do expediente, o céu começa a fechar, formando uma daquelas tempestades de fim de tarde, todos praguejam como as pragas do antigo Egito, lamentando já pelos ônibus lotados e os engarrafamentos. Eis que num rompante céu e terra se abrem, estremecendo a tudo e a todos.

Inacreditavelmente uma luz branca e outra vermelha se espalham, e ao mesmo tempo Deus e o Diabo aparecem na Terra. Os dois com pergaminhos nas mãos. O Coisa Ruim com um sorriso nos lábios de vitória que intriga a todos. Naquele momento tudo está paralisado, inclusive o tempo, relógios, celulares, nada funciona. Todos estão estarrecidos olhando aquelas duas figuras que até então só habitavam a imaginação coletiva.

Uma voz calma e serena começa a ser ouvida por todos, é Deus quem começa a falar: – Queridos filhos, a tão esperada hora chegou. Depois de tantos sinais através de desastres naturais que enviei, não obtive exito. E agora meu amigo aqui terá que fazer o serviço.

Histeria coletiva, todos corriam, procurando abrigo, se esconder sabe-se lá do que, afinal de contas ninguém gostaria de ir diretamente para o inferno. Os mais fervorosos se ajoelham e rezam sem parar. Até que o Belzebu desenrola o seu pergaminho gigante, nele pode se ver milhares de nomes escritos em vermelho. Uma porta cavernosa se abre atrás dele e só o que se pode ver são labaredas imensas de fogo chicoteando o ar.

Sua voz estridente pode ser ouvida por todos: – Terríveis pecadores chegou o momento, levarei todos vocês para o lugar que merecem. Arderão para toda eternidade no fogo do meu inferno. A risada só foi abafada por um pigarrear do Todo Poderoso – Calma lá chifrudinho, não vai chegar aqui no meu rebanho e levar todas as minhas ovelhas. Temos um trato e você sabe muito bem qual é!- Como eu estava falando – Prosseguiu o Criador. – Eu e o camarada lá de baixo, cansamos dessa vida desregrada de vocês. E decidimos dar um basta. É muita inveja, mesquinharia, petulância. Um querendo passar o pé no outro, uma corrida desenfreada pelo sucesso e fortuna. Só que tem uma data no ano que todo mundo nos enche a paciência. – Discursava o Senhor – Esse dia é o dia 31 de dezembro, o Réveillon, a virada do ano, o que quer que seja isso. Neste dia todos os tipos de promessas e pedidos são feitos. Fico com as orelhas ardendo de tanta coisa que sou obrigado a ouvir. É gente pedindo emprego novo, as dezenas da mega sena. Marido e namorado eu nem conto mais. E os que prometem fazer regime e parar de tomar refrigerante. Esses são os primeiros nomes na lista do meu amigo infernal.- Prosseguia assim o Criador do Mundo – E todo ano é a mesma ladainha, não vira o disco, parece discurso de politico. – O diabo ao lado só ria e esfregava as mãos, ansioso por aumentar a população do inferno.

Deus, em tom de reprovação continuava: – Meus filhos, criei os dias, os meses o tempo, justamente para que fosse usado com sabedoria. Se não cumprisse um objetivo naquele período, outro ano iria se iniciar e assim poderia começar de novo. Mas não, todo ano vocês repetiam as mesmas coisas. A coitada da Iemanjá não sabe nem o que fazer com tanta flor e perfume que ela recebe. Mas fica triste que é esquecida nos outros 364 dias do ano. Portanto decidi que meu amigo capeta levará todos aqueles que juraram em vão, fizeram promessas e não as cumpriram. Não gastarei meu precioso tempo, com tsunamis, terremotos, planetas Nibirus nem nada.

Então Deus sentou-se em um pequeno banco, seu pergaminho era infinitamente menor do que o do Diabo, e começou a chamar aqueles que fizeram por merecer. Enquanto isso o Coisa Ruim organizava uma fila quilométrica que chegou a dar três voltas ao redor do planeta.

O fim do mundo pode estar próximo. E você? Em qual fila pretende estar? Passamos da hora das promessas, façamos acontecer, façamos por merecer. A hora é agora.

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