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Mais Uma Dessas História do Coração – Parte VI

 

 

Ela acordou com a aeromoça pedindo para voltar a poltrona à posição normal, pois o avião iria aterrissar. Esforçou-se para abrir os olhos e viu o sol refletir na asa do avião. Uma linda manhã de outono a esperava. Assim que os pneus tocaram o solo, seus pensamentos a levaram para o Brasil, do outro lado do oceano, agora não teria mais volta. Envolveu-se quando não devia, mas quem controla o coração? Pensou ela. Se tudo desse certo, ela poderia vê-lo assim que retornasse para casa.

O porteiro apenas entregou o envelope quando estava saindo para o trabalho. Pela letra delicada sabia que era dela. Apalpou antes de abrir para tentar adivinhar o que continha a carta. Uma letra tremida, o nervosismo se fazia presente nas palavras. Apenas uma linha escrita, um bilhete de despedida:

 

“Você foi a melhor lembrança que poderia trazer do Brasil. Espero poder revê-lo um dia”.

Beijos.

Dentro do envelope também tinha um cd. Gravado por ela também, escrito apenas “You’ve Got The Love”. Ele voltou para casa, subiu as escadas correndo, foi até o aparelho de som e botou o disco para rodar.

O som invadiu a pequena sala, ele acendeu um cigarro e ficou olhando pela janela, como se quisesse vê-la em Paris. Bem que tentou forçar a vista, mas o que viu foi apenas uma empregada limpando as vidraças de um prédio ao longe, e o trânsito da grande cidade pulsando pelas ruas estreitas.

Abriu a porta do apartamento que iria ficar, um pouco distante do centro da cidade, mas perto da universidade. Não queria fugir do seu plano inicial, por isso escolheu aquele lugar, pequeno, aconchegante e silencioso. Também pudera, já estivera em Paris uma dezena de vezes, o intuito agora era estudar e ser uma nova mulher. Por isso decidiu morar sozinha, sem empregadas nem o luxo que tinha na casa dos pais. Colocou as malas próximo ao armário e se jogou na cama. Antes de adormecer pensou no que ele estaria fazendo. Será que recebera sua carta? Estaria ouvindo a música que tinha gravado? Entendera o significado da letra? Com essas perguntas na cabeça pegou no sono, sem se preocupar em fechar a porta da nova casa.

You’ve Got The Love

Sometimes I feel like throwing my hands up in the air
I know I can count on you
Sometimes I feel like saying “Lord I just don’t care”
But you’ve got the love I need To see me through
 
Sometimes it seems that the going is just too rough
And things go wrong no matter what I do
Now and then it seems that life is just too much
But you’ve got the love I need to see me through
 
When food is gone you are my daily meal
When friends are gone I know my savior’s love is real
Your love is real
 
You’ve Got The Love
Time after time I think “Oh Lord what’s the use?”
Time after time I think it’s just no good
Sooner or later in life, the things you love you loose
But you got the love I need to see me through
 
You’ve Got The Love
Sometimes I feel like throwing my hands up in the air
I know I can count on you
Sometimes I feel like saying “Lord I just don’t care”
But you’ve got the love I need to see me through

 

(Continua)

 

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Mais Uma Dessas História do Coração – Parte V

 

O celular apitou. Uma dezena de chamadas não atendidas até então. O relógio marcava 15:40. Não queria sair da cama e ter a certeza que era o chefe ligando. O interfone toca no mesmo momento, mas decide não atender. Encarando o teto mal pintado e descascando, começa a se lembrar do que passara na última noite. Apenas caminhou para o banho, atirou as roupas molhadas em um canto e ligou o chuveiro. A água morna caia suave sobre seu corpo. Suave como aquele beijo, o perfume que ainda estava impregnado em sua pele, as lembranças registradas na retina. Fechou os olhos. Tentaria não pensar em mais nada, sairia pela rua encarando tudo e todos, a fim de esquecer aquele rosto. Mas era traído a todo instante pelos pensamentos. O estomago era agredido constantemente, e como um soco, o tirava o ar, cada vez que se pensava nela.

Os avós fizeram questão de vir do interior para se despedirem da neta. Essa não era uma viagem qualquer, e tinha certeza que encontrariam uma nova mulher dali seis meses. Almoçaram todos juntos, como há muito tempo não se fizera naquela casa. Até a irmã fez questão de servi-la como nos tempos de criança. Estavam todos felizes com a decisão. Depois de tantos problemas e confusões nos últimos anos, era a hora da filha caçula “se tornar gente grande”, como o pai vivia dizendo por ai. No final da tarde partiram para o aeroporto, iria pegar o vôo noturno e chegaria em Paris pela manhã bem cedo. Sem que todos percebessem entregou um envelope ao motorista, com ordens bem claras. Apenas entrega-lo quando o avião estivesse sobrevoando o Atlântico.

Abriu a geladeira, a luz interna piscou algumas vezes, estava com defeito, mas ele sempre esquecia de troca-la. Frutas, algumas fatias de queijo e água. Era o que tinha a sua disposição. Esse foi o seu almoço. Decidiu não sair de casa. Em silêncio pegou tudo que estava lá dentro e calmamente encarando as roupas penduradas na área de serviço foi comendo uma a uma, deixando o queijo por último. Caminhou até a janela, encarou as nuvens cinzas daquele começo de noite, entre um gole de água e uma tragada no cigarro decidiu pegar o celular. Nenhuma ligação. Apenas números do escritório na lista de chamadas não atendidas. Percorreu os prédios com o olhar, mas desejava mesmo saber onde ela estava naquele momento. Não sabia o horário do vôo, por isso desistiu de ir até o aeroporto. Ligou para o número que estava no cartão, aquele do primeiro encontro na livraria. Chamava até entrar a gravação da caixa postal. Ficou escutando atentamente aquela voz, naquele momento era a única música que gostaria de ouvir. E quando o apito soou para gravar uma mensagem, ele desligou. Apagou o contato de sua agenda, e pensou em queimar o cartão com o isqueiro, chegou a botar fogo, mas antes que a chama queimasse o primeiro número, desistiu. Sem olhar, pegou na estante um livro. Abriu e pôs o cartão dentro. Era um de Neruda, naquela página um poema grifado a caneta, que chamara a atenção dela há muito tempo:

 

Dois…
Apenas dois.
Dois seres…
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente…
…Sempre…
…A se olharem…
Pensar talvez:
 “Paralelos que se encontram no infinito…” ·No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

 

(Continua)

 

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