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Mais Uma Dessas História do Coração – Parte V

 

O celular apitou. Uma dezena de chamadas não atendidas até então. O relógio marcava 15:40. Não queria sair da cama e ter a certeza que era o chefe ligando. O interfone toca no mesmo momento, mas decide não atender. Encarando o teto mal pintado e descascando, começa a se lembrar do que passara na última noite. Apenas caminhou para o banho, atirou as roupas molhadas em um canto e ligou o chuveiro. A água morna caia suave sobre seu corpo. Suave como aquele beijo, o perfume que ainda estava impregnado em sua pele, as lembranças registradas na retina. Fechou os olhos. Tentaria não pensar em mais nada, sairia pela rua encarando tudo e todos, a fim de esquecer aquele rosto. Mas era traído a todo instante pelos pensamentos. O estomago era agredido constantemente, e como um soco, o tirava o ar, cada vez que se pensava nela.

Os avós fizeram questão de vir do interior para se despedirem da neta. Essa não era uma viagem qualquer, e tinha certeza que encontrariam uma nova mulher dali seis meses. Almoçaram todos juntos, como há muito tempo não se fizera naquela casa. Até a irmã fez questão de servi-la como nos tempos de criança. Estavam todos felizes com a decisão. Depois de tantos problemas e confusões nos últimos anos, era a hora da filha caçula “se tornar gente grande”, como o pai vivia dizendo por ai. No final da tarde partiram para o aeroporto, iria pegar o vôo noturno e chegaria em Paris pela manhã bem cedo. Sem que todos percebessem entregou um envelope ao motorista, com ordens bem claras. Apenas entrega-lo quando o avião estivesse sobrevoando o Atlântico.

Abriu a geladeira, a luz interna piscou algumas vezes, estava com defeito, mas ele sempre esquecia de troca-la. Frutas, algumas fatias de queijo e água. Era o que tinha a sua disposição. Esse foi o seu almoço. Decidiu não sair de casa. Em silêncio pegou tudo que estava lá dentro e calmamente encarando as roupas penduradas na área de serviço foi comendo uma a uma, deixando o queijo por último. Caminhou até a janela, encarou as nuvens cinzas daquele começo de noite, entre um gole de água e uma tragada no cigarro decidiu pegar o celular. Nenhuma ligação. Apenas números do escritório na lista de chamadas não atendidas. Percorreu os prédios com o olhar, mas desejava mesmo saber onde ela estava naquele momento. Não sabia o horário do vôo, por isso desistiu de ir até o aeroporto. Ligou para o número que estava no cartão, aquele do primeiro encontro na livraria. Chamava até entrar a gravação da caixa postal. Ficou escutando atentamente aquela voz, naquele momento era a única música que gostaria de ouvir. E quando o apito soou para gravar uma mensagem, ele desligou. Apagou o contato de sua agenda, e pensou em queimar o cartão com o isqueiro, chegou a botar fogo, mas antes que a chama queimasse o primeiro número, desistiu. Sem olhar, pegou na estante um livro. Abriu e pôs o cartão dentro. Era um de Neruda, naquela página um poema grifado a caneta, que chamara a atenção dela há muito tempo:

 

Dois…
Apenas dois.
Dois seres…
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente…
…Sempre…
…A se olharem…
Pensar talvez:
 “Paralelos que se encontram no infinito…” ·No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

 

(Continua)

 

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Abismo da Paixão

Ele chegou primeiro e sentou.

Ela sem demora logo apareceu, se entreolharam.

Em silêncio permaneceram, até que as mãos se procuraram.

Os dedos se entrelaçaram, e sem uma palavra trocar, se atiraram.

Uma velha placa ali perto, se podia ler: “Abismo da Paixão”.

Como chegariam lá embaixo ninguém jamais iria saber.

Mas naquele instante apenas o desejo, a presença, a cumplicidade guiava aquele jovem casal que despencava.

Dois corações cansados, que já caíram naquele vazio algumas vezes,

E lá embaixo se espatifaram.

Mas desta vez a certeza de que seria diferente os fez tomarem essa decisão.,

E juntos partiram mais uma vez para os desafios do coração.

Mais Uma Dessas Histórias do Coração!

Ela entrara na livraria apenas para comprar o presente do amigo-secreto, nunca pisara em uma na vida antes, também não tinha vontade de fazê-la novamente. Olhara com certo nojo e desdém para aquelas pessoas que procuravam livros nas prateleiras. Tenta puxar na memória qual foi o último que lera, mas nem isso conseguira se recordar. A caminho do caixa, se depara com um rapaz que chama sua atenção. – Como pode tão belo rosto, estar entretido com uma coisa tão chata como esses livros? – Pensara a bela garota. Bela e vazia garota. Que por hobby colecionará bolsas, sapatos e óculos, em sua enorme casa, um comodo fora destacado apenas para isso. Alguns ela nem usara, tinha prazer em gastar. Condição para isso possuía, já que era filha única de família abastada. Assim que terminara o colegial, decidira morar em Paris por um tempo afim de pensar em qual carreira gostaria de seguir, ou se seguiria a carreira da mãe, academia, shopping, eventos sociais e marido rico.

Caminhou em direção ao rapaz cobiçado e sem pestanejar, se atirou em seus braços, como se tivesse tropeçado em um objeto imaginário. Com um reflexo quase felino, o jovem a agarrou e os dois caíram no chão. O barulho fez com que outras pessoas ao redor parassem para olhar o que acabara de acontecer. Sem perder a pose e a petulância, se escorou no rapaz e apenas disse: – Está desculpado. E saiu pelo corredor deixando para trás a bagunça que acabara de causar.

Ele correu até a fila do caixa onde ela estava e com um puxão a fez rodopiar no ar e cair ao chão novamente. – Como assim você se joga em cima de mim e ainda sai sem se desculpar? – indagou o enfurecido homem. Ela abriu a bolsa, tirou um cartão com seu telefone, enquanto fazia o pagamento do livro e entregou a ele. – Nos vemos por ai, gatinho! E com uma piscadela e todo seu charme se foi. Aquela atitude intrigara mais ainda o jovem, que não esboçou reação alguma, apenas enfiou o cartão amassado no bolso.

Depois de um exaustivo dia no escritório, ele retornara ao apartamento recém alugado. Algumas caixas da mudança ainda não tinham sido abertas, apenas o velho sofá no canto da sala, e a cama estavam no lugar. Ligou a tevê para ouvir as noticias e se atirou no sofá para relaxar um pouco. Enquanto isso, em algum lugar da cidade, a jovem rica se arrumara para mais um jantar cheio de pompa e circunstância em algum salão nobre com a elite da sociedade a qual sempre frequentara. Entre vestidos, sapatos e colares caríssimos ela não conseguia pensar em outra coisa a não ser naquele olhar misterioso e enfurecido que avistara na livraria naquela tarde. – Quem era aquele garoto? Porque não tiro ele do pensamento? Nem seu nome eu sei. – Fora para o jantar pensando justamente nisso e entre flashes e champanhes ficara atenta ao celular, talvez ele pudesse telefonar, afinal de contas, ela entregara um cartão a ele, que com sorte não fora rasgado ou jogado fora.

Mas o cartão com o número ficou esquecido durante semanas, pois a calça ficou jogada em um canto da casa até que a faxineira fosse dar uma geral naquela bagunça. Entre copos sujos, livros encaixotados e roupas espalhadas o cartão caiu do bolso e foi deixado na porta da geladeira preso no imã da Bolívia que ganhara de um amigo que fora de férias para lá e trouxe essas bugigangas de lembrança para todos do escritório. Estranhou aquela limpeza e organização toda quando voltou do trabalho, nem parecia a mesma casa tamanho milagre que acontecerá no lugar. Por um instante desejou encontrar o apartamento assim sempre que chegasse todo dia, mas esse sonho não seria possível por causa de sua natureza masculina.

Após o banho decidiu pedir uma pizza, e nem notou que pegara o cartão errado, não era o da pizzaria e sim o telefone da “louca da livraria” e sem prestar atenção discou calmamente os números , e uma voz doce atendeu do outro lado: – Alô, quem fala?…

(Continua)

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