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Mais Uma Dessas História do Coração – Parte VII

 

Botou o paletó novamente, assim que a música acabou. Lavou o rosto e por alguns instantes encarou o espelho. Pensou em pedir as contas no emprego e partir para a França, morar com ela naquele apartamento, caminhar pela Champs-Élysées até anoitecer, pedalar até o campus onde ela estudava apenas para vê-la deitada embaixo de uma árvore enquanto estuda para a semana de provas. Mas sabia que não poderia fazer isso. Um dia essa vida iria acabar e teria que voltar ao Brasil, a sua vida pacata e sem graça. Decidiu mandar uma mensagem pelo celular, se ela respondesse ele iria atrás dela. E assim o fez: “Olá, tudo bem por ai? Como foi a viagem? Espero que esteja bem. Beijos”. E assim partiu para o trabalho, esperando levar um belo esporro do chefe, pois estava mais do que atrasado.

Quando despertou, sentiu o cansaço da viagem, o corpo dolorido. A preguiça bateu forte e não pensou em desfazer as malas, apenas pegou uma troca de roupa e saiu para comprar alguns pães. Iria fazer compras só na manhã seguinte. Caminhou algumas quadras até um pequeno mercado, onde pegou frutas, leite e um pequeno pão. Seria o seu jantar. Ao retornar, lembrou de ligar para a família, para avisar que estava viva e fizera boa viagem. Abriu a bolsa e não achou o telefone. Procurou na bagagem de mão, mas também não estava lá. O coração começou a bater acelerado, já pensou na hipótese de tê-lo esquecido. “E se ele ligar? Ou mandar uma mensagem?. Vai achar que eu não quero mais vê-lo?”. Neste momento todas as roupas já estavam fora da mala e jogada pela sala. Sentou na velha poltrona perto da janela, e queria gritar de raiva. Como pode esquecer o celular? Não teria como falar com ele, não trocaram e-mail, muito menos sabia o sobrenome dele para procurar na internet. Pegou algum dinheiro na carteira e correu para ligar para casa. Encontrou uma banca onde comprou um cartão para ligações internacionais. Caminhou mais algumas quadras e achou uma cabine telefônica. Falou com sua mãe sobre a viagem, o apartamento e disse que esperava por eles no Réveillon. Antes de desligar, pediu para mandar o celular pelo correio. A mãe questionou se não seria mais fácil comprar outro em Paris. Mas ela não poderia trocar de número. Ele só tinha esse contato. E por alguns dias ficaria sem falar com ela. Só de pensar nisso, sentiu uma insegurança. Estava entrando mais uma vez neste jogo perigoso do amor. Passou o endereço de sua nova casa e disse que era para mandar o mais rápido possível. Sem entender direito, sua mãe apenas concordou e desligou o telefone, desejando sorte e cuidado a filha.

A cada cinco minutos ele olhava no celular, e nada de resposta. Pensou em escrever outra, talvez tivesse dado erro, afinal de contas ele nunca tinha mandado uma mensagem para ninguém fora do pais. Não conhecia ninguém que tivesse mudado de cidade, quanto mais de país. Era tudo tão intenso e novo que o assustava as vezes. Não se importou com as broncas do chefe, que tirou o dia para pegar no seu pé por conta do atrasado. Apenas esperava um resposta que não chegou, nem no final do dia, nem no dia seguinte, muito menos no terceiro. Com o passar dos dias, a expectativa por um sinal de vida dela foi diminuindo e a tristeza foi tomando seu lugar. A rotina diária era sempre a mesma. Chegava em casa, se atirava no sofá, abria uma cerveja, dava o play no aparelho de som, a música tocava em looping até a hora em que ele pegava no sono. Sujo, no sofá. O despertador tocava, então ele pulava no susto, tomava uma chuveirada, botava uma roupa limpa e corria para o trabalho.

Foram quase quinze dias até chegar a encomenda. Assim que ela chegou da aula, abriu a caixinha de correspondência, ritual que passou a fazer todos os dias, e estava lá. Nem leu o pequeno bilhete que sua mãe tinha escrito, apenas ligou o aparelho e ficou encarando-o por alguns minutos. Uma ligação, uma mensagem, qualquer sinal de vida que fosse, e assim aconteceu. Recebeu inúmeras mensagens de amigos e parentes preocupados com a sua demora em mandar noticias, mas no meio de desejos de sucesso e broncas lá estava ela. Poucas palavras que encheram um coração apertado de alegria. Se atirou na cama, e leu, releu, tornou a ler e assim o fez por incontáveis vezes. Queria responder, escrever um texto, contar cada detalhe até aquele dia. Dizer que não o esqueceu, nem por um minuto e que tudo que mais queria era estar com ele em qualquer lugar, no carro dele a caminho da praia, ou em Paris, onde viveriam como dois pombinhos em eterna lua de mel. Mas foi comedida nas palavras, iria esperar uma resposta dele, então escreveu: “ Olá, cheguei bem por aqui, esqueci o cel dentro de uma outra bolsa e ele só chegou agora pelo correio. Espero que esteja bem. Beijos”.

Neste dia, ele saiu mais atrasado do que o normal, e devido aos seus constantes atrasos o chefe estava vigiando os seus horários, então esqueceu tudo em casa, saiu apenas com a chave do carro, sem carteira nem celular. Chegou esbaforido em sua mesa e correndo ligou o computador. Foi quando notou que estava sem nada. Nem dinheiro para o almoço.

Depois de uma faxina rápida no apartamento, ela decidiu jogar a pequena caixa fora, foi então que viu o bilhete de sua mãe, e só então soube da noticia: “ Filha, espero que esteja tudo bem por ai. Aqui está seu celular. Sua prima irá casar daqui três semanas, e mandou avisar que a sua presença é indispensável. Espero que você possa vir passar um final de semana conosco e assim aproveitar para matar a saudades de todos. Com amor. Mamãe!

O semestre estava apenas começando e não haveria problema algum em perder dois dias de aula. Ele apenas teria que responder a sua mensagem, saber que ainda queria vê-la e então ela iria ao casamento, e mais do que isso poderia revê-lo.

(CONTINUA)

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