O Homem e sua sombra!

 

Ele acordou. Sentou a pé da cama como fazia todos os dias.

Se espreguiçou e acariciou o cachorro que dormia no velho tapete do quarto.

Sentiu algo estranho, não soube dizer o que era. Tinha o pressentimento que faltava algo ali.

Percorreu os olhos pelo cômodo, mas tudo estava em aparente ordem na desordem da bagunça do seu quarto.

Após o banho rápido, um gole de café e um pão com manteiga.

Mas mantinha a sensação de que algo estava fora do lugar.

Olhou os pés, estava usando meias. Continuou subindo e também checou o cinto.

Todos os botões da camisa estavam ali.

O relógio no pulso esquerdo e as chaves no bolso direito também estavam em ordem.

Então o que faltava?

O dia estava lindo e lá fora o sol brilhava intensamente.

A rua cheia e o trânsito não incomodaram tanto quanto aquilo que lhe faltava.

Por diversas vezes parou diante de vitrines só para ver o próprio reflexo e conferir o visual.

E travou uma luta solitária consigo próprio. E saiu derrotado por diversos rounds.

Não sabia explicar aquela sensação, mas percebeu que durante o dia ele foi apenas uma pessoa.

Sem sorrisos nem tristezas. Quase sem sentimentos. Não se comoveu nem empolgou com nada que tenha acontecido.

Apenas viveu.

Quando cruzou a esquina de casa, ela estava encostada embaixo de um poste.

Percebeu a sua silhueta desenhada e enfim sorriu.

O peito se encheu de estranho contentamento.

Teve vontade de correr e abraça-la. Mas não poderia fazer aquilo.

Apenas se aproximou, e de mansinho seus pés foram se unindo.

Primeiro o direito, depois o esquerdo.

E por toda a rua, debaixo das luzes, foram bailando, uma canção sem som.

Ele e sua sombra.

 

 

 

 

 

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Uma nota qualquer!

 

Quando aqueles primeiros acordes saiam da caixa, uma lágrima percorria sua face.

Amava aquela música, tocava todas as noites.

No mesmo velho bar, com os mesmos velhos rabugentos, as mesmas cervejas quentes.

Mas para ele pouco importava, desde o dia em que ela partiu.

Sua vida se resumiu ao seu trompete enferrujado e algumas moedas no bolso.

Seu amigo do contrabaixo ditava o tom, para que ele pudesse entrar em transe,

e assim ficar perto dela, aonde ela estivesse.

Nenhum aplauso ao final, apenas a camisa molhada, o choro misturado ao suor.

Ninguém prestava atenção, mas tocava com o coração, cada sopro, cada nota, uma declaração de amor.

Não bebia, nem fumava. Gostava apenas do clima do lugar. E por lá passou os últimos meses.

Numa noite qualquer de julho, em meio ao frio, e sol maior, um rosto familiar cruzou a porta.

O ar não saia mais, foi golpeado pelo destino. E olha que ele nem acreditava nessa história.

O cabelo escuro continuava a brilhar, os olhos pequenos e cerrados cruzaram com os dele.

Seu colega de palco entendeu o recado, e começou o solo.

Pouco importava, já que ninguém estava ali por causa deles. Mas em respeito aos deuses do blues, ele continuou.

A mão trêmula encostou no seu ombro, e seu coração encontrou o dela. Batendo no mesmo compasso.

Não trocaram nenhuma palavra, apenas bailaram ao som da música até o dia clarear.

No falando rasgado apenas se ouvia “ Everybody Loves the Sunshine…”

Mais Uma Dessas História do Coração – Parte VII

 

Botou o paletó novamente, assim que a música acabou. Lavou o rosto e por alguns instantes encarou o espelho. Pensou em pedir as contas no emprego e partir para a França, morar com ela naquele apartamento, caminhar pela Champs-Élysées até anoitecer, pedalar até o campus onde ela estudava apenas para vê-la deitada embaixo de uma árvore enquanto estuda para a semana de provas. Mas sabia que não poderia fazer isso. Um dia essa vida iria acabar e teria que voltar ao Brasil, a sua vida pacata e sem graça. Decidiu mandar uma mensagem pelo celular, se ela respondesse ele iria atrás dela. E assim o fez: “Olá, tudo bem por ai? Como foi a viagem? Espero que esteja bem. Beijos”. E assim partiu para o trabalho, esperando levar um belo esporro do chefe, pois estava mais do que atrasado.

Quando despertou, sentiu o cansaço da viagem, o corpo dolorido. A preguiça bateu forte e não pensou em desfazer as malas, apenas pegou uma troca de roupa e saiu para comprar alguns pães. Iria fazer compras só na manhã seguinte. Caminhou algumas quadras até um pequeno mercado, onde pegou frutas, leite e um pequeno pão. Seria o seu jantar. Ao retornar, lembrou de ligar para a família, para avisar que estava viva e fizera boa viagem. Abriu a bolsa e não achou o telefone. Procurou na bagagem de mão, mas também não estava lá. O coração começou a bater acelerado, já pensou na hipótese de tê-lo esquecido. “E se ele ligar? Ou mandar uma mensagem?. Vai achar que eu não quero mais vê-lo?”. Neste momento todas as roupas já estavam fora da mala e jogada pela sala. Sentou na velha poltrona perto da janela, e queria gritar de raiva. Como pode esquecer o celular? Não teria como falar com ele, não trocaram e-mail, muito menos sabia o sobrenome dele para procurar na internet. Pegou algum dinheiro na carteira e correu para ligar para casa. Encontrou uma banca onde comprou um cartão para ligações internacionais. Caminhou mais algumas quadras e achou uma cabine telefônica. Falou com sua mãe sobre a viagem, o apartamento e disse que esperava por eles no Réveillon. Antes de desligar, pediu para mandar o celular pelo correio. A mãe questionou se não seria mais fácil comprar outro em Paris. Mas ela não poderia trocar de número. Ele só tinha esse contato. E por alguns dias ficaria sem falar com ela. Só de pensar nisso, sentiu uma insegurança. Estava entrando mais uma vez neste jogo perigoso do amor. Passou o endereço de sua nova casa e disse que era para mandar o mais rápido possível. Sem entender direito, sua mãe apenas concordou e desligou o telefone, desejando sorte e cuidado a filha.

A cada cinco minutos ele olhava no celular, e nada de resposta. Pensou em escrever outra, talvez tivesse dado erro, afinal de contas ele nunca tinha mandado uma mensagem para ninguém fora do pais. Não conhecia ninguém que tivesse mudado de cidade, quanto mais de país. Era tudo tão intenso e novo que o assustava as vezes. Não se importou com as broncas do chefe, que tirou o dia para pegar no seu pé por conta do atrasado. Apenas esperava um resposta que não chegou, nem no final do dia, nem no dia seguinte, muito menos no terceiro. Com o passar dos dias, a expectativa por um sinal de vida dela foi diminuindo e a tristeza foi tomando seu lugar. A rotina diária era sempre a mesma. Chegava em casa, se atirava no sofá, abria uma cerveja, dava o play no aparelho de som, a música tocava em looping até a hora em que ele pegava no sono. Sujo, no sofá. O despertador tocava, então ele pulava no susto, tomava uma chuveirada, botava uma roupa limpa e corria para o trabalho.

Foram quase quinze dias até chegar a encomenda. Assim que ela chegou da aula, abriu a caixinha de correspondência, ritual que passou a fazer todos os dias, e estava lá. Nem leu o pequeno bilhete que sua mãe tinha escrito, apenas ligou o aparelho e ficou encarando-o por alguns minutos. Uma ligação, uma mensagem, qualquer sinal de vida que fosse, e assim aconteceu. Recebeu inúmeras mensagens de amigos e parentes preocupados com a sua demora em mandar noticias, mas no meio de desejos de sucesso e broncas lá estava ela. Poucas palavras que encheram um coração apertado de alegria. Se atirou na cama, e leu, releu, tornou a ler e assim o fez por incontáveis vezes. Queria responder, escrever um texto, contar cada detalhe até aquele dia. Dizer que não o esqueceu, nem por um minuto e que tudo que mais queria era estar com ele em qualquer lugar, no carro dele a caminho da praia, ou em Paris, onde viveriam como dois pombinhos em eterna lua de mel. Mas foi comedida nas palavras, iria esperar uma resposta dele, então escreveu: “ Olá, cheguei bem por aqui, esqueci o cel dentro de uma outra bolsa e ele só chegou agora pelo correio. Espero que esteja bem. Beijos”.

Neste dia, ele saiu mais atrasado do que o normal, e devido aos seus constantes atrasos o chefe estava vigiando os seus horários, então esqueceu tudo em casa, saiu apenas com a chave do carro, sem carteira nem celular. Chegou esbaforido em sua mesa e correndo ligou o computador. Foi quando notou que estava sem nada. Nem dinheiro para o almoço.

Depois de uma faxina rápida no apartamento, ela decidiu jogar a pequena caixa fora, foi então que viu o bilhete de sua mãe, e só então soube da noticia: “ Filha, espero que esteja tudo bem por ai. Aqui está seu celular. Sua prima irá casar daqui três semanas, e mandou avisar que a sua presença é indispensável. Espero que você possa vir passar um final de semana conosco e assim aproveitar para matar a saudades de todos. Com amor. Mamãe!

O semestre estava apenas começando e não haveria problema algum em perder dois dias de aula. Ele apenas teria que responder a sua mensagem, saber que ainda queria vê-la e então ela iria ao casamento, e mais do que isso poderia revê-lo.

(CONTINUA)

Um monstrinho chamado Ansiedade!

 

 

Dentro de mim habita um monstrinho.

Já não sei há quanto tempo ele mora em minhas entranhas.

Mas sinto a sua presença todos os dias.

A cada guloseima, doce, petisco que engulo, ele também se alimenta.

Cada vez que não consigo algo, ele se fortalece mais ainda.

O seu nome? Ansiedade.

Muitas vezes ele me domina, e suga as minhas energias.

Me derruba, como um Davi derrotando Golias.

A sua arma? A espera.

Só me fazer esperar, esperar e esperar.

Nada me deixa mais fora do controle do que esperar.

Muitas coisas nessa vida não chegam em nossas mãos no tempo que gostaríamos.

Dai o monstrinho ganha forças, e sorrateiramente me derruba, com um único golpe.

Sei que no alto daquele monte, o mais alto da cordilheira, um velho sábio guarda um segredo.

A arma secreta que conseguirá aniquilar o tal monstro de uma vez por todas.

O nome dela? Paciência.

Para chegarmos até ele, é necessário escalarmos morro acima, rocha por rocha.

Sem esmorecer e nem olhar para baixo.

Assim que cruzarmos as nuvens, estaremos na metade do caminho.

Só assim conseguiremos alcançá-lo.

Mas eu ainda estou no pé da montanha, e tenho um longo caminho pela frente.

 

Mais Uma Dessas História do Coração – Parte VI

 

 

Ela acordou com a aeromoça pedindo para voltar a poltrona à posição normal, pois o avião iria aterrissar. Esforçou-se para abrir os olhos e viu o sol refletir na asa do avião. Uma linda manhã de outono a esperava. Assim que os pneus tocaram o solo, seus pensamentos a levaram para o Brasil, do outro lado do oceano, agora não teria mais volta. Envolveu-se quando não devia, mas quem controla o coração? Pensou ela. Se tudo desse certo, ela poderia vê-lo assim que retornasse para casa.

O porteiro apenas entregou o envelope quando estava saindo para o trabalho. Pela letra delicada sabia que era dela. Apalpou antes de abrir para tentar adivinhar o que continha a carta. Uma letra tremida, o nervosismo se fazia presente nas palavras. Apenas uma linha escrita, um bilhete de despedida:

 

“Você foi a melhor lembrança que poderia trazer do Brasil. Espero poder revê-lo um dia”.

Beijos.

Dentro do envelope também tinha um cd. Gravado por ela também, escrito apenas “You’ve Got The Love”. Ele voltou para casa, subiu as escadas correndo, foi até o aparelho de som e botou o disco para rodar.

O som invadiu a pequena sala, ele acendeu um cigarro e ficou olhando pela janela, como se quisesse vê-la em Paris. Bem que tentou forçar a vista, mas o que viu foi apenas uma empregada limpando as vidraças de um prédio ao longe, e o trânsito da grande cidade pulsando pelas ruas estreitas.

Abriu a porta do apartamento que iria ficar, um pouco distante do centro da cidade, mas perto da universidade. Não queria fugir do seu plano inicial, por isso escolheu aquele lugar, pequeno, aconchegante e silencioso. Também pudera, já estivera em Paris uma dezena de vezes, o intuito agora era estudar e ser uma nova mulher. Por isso decidiu morar sozinha, sem empregadas nem o luxo que tinha na casa dos pais. Colocou as malas próximo ao armário e se jogou na cama. Antes de adormecer pensou no que ele estaria fazendo. Será que recebera sua carta? Estaria ouvindo a música que tinha gravado? Entendera o significado da letra? Com essas perguntas na cabeça pegou no sono, sem se preocupar em fechar a porta da nova casa.

You’ve Got The Love

Sometimes I feel like throwing my hands up in the air
I know I can count on you
Sometimes I feel like saying “Lord I just don’t care”
But you’ve got the love I need To see me through
 
Sometimes it seems that the going is just too rough
And things go wrong no matter what I do
Now and then it seems that life is just too much
But you’ve got the love I need to see me through
 
When food is gone you are my daily meal
When friends are gone I know my savior’s love is real
Your love is real
 
You’ve Got The Love
Time after time I think “Oh Lord what’s the use?”
Time after time I think it’s just no good
Sooner or later in life, the things you love you loose
But you got the love I need to see me through
 
You’ve Got The Love
Sometimes I feel like throwing my hands up in the air
I know I can count on you
Sometimes I feel like saying “Lord I just don’t care”
But you’ve got the love I need to see me through

 

(Continua)

 

Quero Apenas Falar!

 

Gostaria de saber escrever.

Como os poetas, os romancistas, os escritores.

Expressar o sentimento, que ora sufoca o coração ora inunda-o de alegria.

Não quero saber rimar panela com janela,

Isso eu mal sei fazer.

Quero transformar a minha dor, nas dores do mundo.

Que meu pranto seja ouvido por aquele monge budista no alto do Himalaia.

Que o meu sorriso ilumine os mares como o Farol de Alexandria

Quero apenas falar.

Mais Uma Dessas História do Coração – Parte V

 

O celular apitou. Uma dezena de chamadas não atendidas até então. O relógio marcava 15:40. Não queria sair da cama e ter a certeza que era o chefe ligando. O interfone toca no mesmo momento, mas decide não atender. Encarando o teto mal pintado e descascando, começa a se lembrar do que passara na última noite. Apenas caminhou para o banho, atirou as roupas molhadas em um canto e ligou o chuveiro. A água morna caia suave sobre seu corpo. Suave como aquele beijo, o perfume que ainda estava impregnado em sua pele, as lembranças registradas na retina. Fechou os olhos. Tentaria não pensar em mais nada, sairia pela rua encarando tudo e todos, a fim de esquecer aquele rosto. Mas era traído a todo instante pelos pensamentos. O estomago era agredido constantemente, e como um soco, o tirava o ar, cada vez que se pensava nela.

Os avós fizeram questão de vir do interior para se despedirem da neta. Essa não era uma viagem qualquer, e tinha certeza que encontrariam uma nova mulher dali seis meses. Almoçaram todos juntos, como há muito tempo não se fizera naquela casa. Até a irmã fez questão de servi-la como nos tempos de criança. Estavam todos felizes com a decisão. Depois de tantos problemas e confusões nos últimos anos, era a hora da filha caçula “se tornar gente grande”, como o pai vivia dizendo por ai. No final da tarde partiram para o aeroporto, iria pegar o vôo noturno e chegaria em Paris pela manhã bem cedo. Sem que todos percebessem entregou um envelope ao motorista, com ordens bem claras. Apenas entrega-lo quando o avião estivesse sobrevoando o Atlântico.

Abriu a geladeira, a luz interna piscou algumas vezes, estava com defeito, mas ele sempre esquecia de troca-la. Frutas, algumas fatias de queijo e água. Era o que tinha a sua disposição. Esse foi o seu almoço. Decidiu não sair de casa. Em silêncio pegou tudo que estava lá dentro e calmamente encarando as roupas penduradas na área de serviço foi comendo uma a uma, deixando o queijo por último. Caminhou até a janela, encarou as nuvens cinzas daquele começo de noite, entre um gole de água e uma tragada no cigarro decidiu pegar o celular. Nenhuma ligação. Apenas números do escritório na lista de chamadas não atendidas. Percorreu os prédios com o olhar, mas desejava mesmo saber onde ela estava naquele momento. Não sabia o horário do vôo, por isso desistiu de ir até o aeroporto. Ligou para o número que estava no cartão, aquele do primeiro encontro na livraria. Chamava até entrar a gravação da caixa postal. Ficou escutando atentamente aquela voz, naquele momento era a única música que gostaria de ouvir. E quando o apito soou para gravar uma mensagem, ele desligou. Apagou o contato de sua agenda, e pensou em queimar o cartão com o isqueiro, chegou a botar fogo, mas antes que a chama queimasse o primeiro número, desistiu. Sem olhar, pegou na estante um livro. Abriu e pôs o cartão dentro. Era um de Neruda, naquela página um poema grifado a caneta, que chamara a atenção dela há muito tempo:

 

Dois…
Apenas dois.
Dois seres…
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente…
…Sempre…
…A se olharem…
Pensar talvez:
 “Paralelos que se encontram no infinito…” ·No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

 

(Continua)

 

Cásper Campeã do JUCA 2011!!!

Já se passava do meio dia quando meu celular tocou. Todos em casa sentados a mesa almoçando, mãe, pai, irmã e ela que sempre me liga também estava presente, minha namorada. Por um minuto hesitei em atender, afinal de contas era domingo e provavelmente deveria ser engano, mas para minha alegria futura ele foi insistente e continuou tocando. Resolvi atender, e do outro lado ouvia apenas gritos, e uma multidão gritando, pensei em algum amigo indo ao jogo do Corinthians, que na mesma tarde iria enfrentar o São Paulo, e depois de uns quatro gritos de “alô, não estou te ouvindo”, consegui identificar a voz do meu velho amigo Felippe Rosell o grande Puff, rouco e extasiado que ao longe naquela ligação maluca apenas gritava: “Boituvaaaaaaa, a Cásper foi campeã do JUCA!”.

Neste momento pude sentir uma lágrima de felicidade rolar. Minha voz quase não saia, engasguei e só consiga gritar do outro lado “Eu não acreditoooo, a Cásper campeãããã, Putaquepariu”. Emoção incomparável, indescritível, mesmo a quilômetros de distância eu podia imaginar a festa que estava acontecendo naquele momento. Logo eu que nunca participei de nenhuma equipe da faculdade, freqüentei poucas baladas e cervejadas e fui a apenas a UM Juca, estava emocionado com o titulo inédito do exército vermelho.

Foi só no terceiro ano de faculdade que pude finalmente saber o que é ficar quatro dias sem dormir, sem tomar banho e que assim seja como diz os versos de uma das músicas da melhor bateria de todas regida por Mestre Tieta. Foi no longínquo ano de 2006 que partimos rumo a Registro para vibrar, cantar, e empurrar nossos atletas rumo ao Olimpo Universitário. Pude presenciar algumas vitórias e muitas derrotas. Mas o espírito era apenas um, torcer, defender o nosso pavilhão vermelho e branco de todos os nossos adversários, ou inimigos como os sardinhas, voltar para casa com o corpo estraçalhado, mas com a alma lavada. Naquele ano a melhor música da bateria foi entoada pela primeira vez e até hoje todo casperiano canta com orgulho “Eu sou sempre caspereeeer, sempre contigo caspereeeer, só eu sei por que não fico em casa”. Três linhas que resumem perfeitamente o espírito de todos aqueles que freqüentam ou freqüentaram os labirintos daquele velho prédio na Avenida Paulista.

Depois disso muita coisa aconteceu. Ano de TCC, extinção do nosso curso, formatura e nunca mais pude ir a um JUCA, mas quando chega o feriado, aonde quer que eu esteja sempre imagino o que possa estar acontecendo com a nossa querida Cásper, aguardo ansioso por noticias, saber o que ganhamos de quem, sempre imaginando quando chegaria a nossa hora, até que finalmente ela veio, e junto com os únicos representantes de TURISMO no meio daquele exército de comunicadores, Judas e Puff, pelo telefone pude gritar É CAMPEÃ!

SOU MAIS CÁSPER!!!

Minha saga pela camiseta P.

Segunda-feira, 20 de junho de 2011. Após sair do trabalho, decido passar em uma farmácia para conferir o meu peso atual. Depois de um final de semana que comilanças, decidi não empurrar mais com a barriga, literalmente, o que era para eu ter começado há muito tempo. O temido REGIME. Tenho 1,73 de altura e sempre mantive o peso na faixa dos 65 kg. Relativamente magro, me dava o luxo de usar camisetas e camisas de tamanho P. O que era uma maravilha, afinal de contas a maioria dos homens usa M ou G, então todo o modelo que eu escolhia, sempre tinha no meu tamanho. Mas desde o fim da faculdade, no longínquo ano de 2007, entrei em uma vida completamente sedentária, assíduo praticante do esporte zapear canais de televisão, com maratonas intermináveis de dormidas no sofá. Sem contar o levantamento de garfo, montanhas e montanhas de comidas, lanches e qualquer coisa mastigável que eu encontrasse pela frente. Em quatro anos consegui engordar 13 kg, saindo dos modestos, 65 para os temidos 78 kg.

Comecei a notar que as minhas roupas ficaram um pouco apertadas, enquanto eu observava uma protuberância brotar em minha região abdominal. Mas até então era um segredo só meu, uma lei do silêncio estabelecida, onde eu não falaria nada sobre ela, e ela ficaria ali quietinha sem se manifestar, ou melhor, sem aumentar de tamanho. Mas não foi bem isso que aconteceu. As pessoas começaram a reparar, a comentar que eu tinha engordado. Que tinha ganho um pneuzinho, inclusive aquelas que tanto me defenderam a vida toda, minha irmã, minha mãe e até o meu avô. Para um homem reparar na barriga de outro homem é porque a coisa está realmente séria. Foi um choque, não que eu não tivesse percebido que minha quantidade de consumo de calorias, gorduras e doces tivesse aumentado, mas tudo bem era só uma fase eu pensava, mas a tal da fase nunca passou e parecia que tinha vindo para ficar.

Neste último final de semana, foi aniversário do meu avô, como tenho uma família pequena, são sessenta pessoas entre tios, primos, filhos dos primos e porras nenhuma, a quantidade de comida servida foi gigantesca. Como somos filhos de lusitanos não pode faltar bacalhau, vinho do porto, tremoço e muita, mas muita sardinha na brasa com fava portuguesa. Sinal de comilança sem fim, e assim foi. Ficamos até as Sete e meia da noite assando sardinha e jogando conversa fora. Nada mais gostoso para um encontro em família. Mas não sei o que pesou mais, os 2 kg de sardinha que comi ou a consciência. Fui praticamente queimado na fogueira da inquisição por minha namorada, mãe e irmã ao final da festa.

Então decidi que a partir de hoje, segunda-feira, começarei a minha saga em busca da minha camiseta P. Quero voltar a usar calça 38, camisa tamanho 1 e camiseta tamanho P. Perderei os 13kgs ganhos nestes últimos anos. Nada de muito radical, sem remédios, folhas de alface como refeição ou qualquer outra fórmula mirabolante. Como moro a menos de cinqüenta metros do Parque da Água Branca, estabeleci que irei caminhar e correr por lá todos os dias, de segunda a sexta-feira durante uma hora. Farei duzentas abdominais e assim que tiver condições financeiras entrarei em uma academia. Já parei de tomar refrigerantes e comer doces industrializados. Me alimentarei de três em três horas e farei cinco refeições diárias. Com o objetivo de perder 2 kg por mês. Farei um post semanal para relatar como está sendo essa minha experiência e atualizando a minha pesagem. Chegando ao verão com a tão sonhada barriga tanquinho. Ok, isso é exagero da minha parte. Mas não mais ostentando este que muitos barrigudos conformados por ai chamam de “calo sexual”.

Mais Uma Dessas Histórias do Coração! – Parte IV

As horas foram avançando. Cigarros, cervejas e risadas passaram a ser o combustível daqueles dois indivíduos que mal se conheciam. O silêncio tomava conta da situação em alguns momentos, mas logo era quebrado por um sorriso dela, que com uma piscadela, o encarava e bebericava a cerveja. Em um rompante ele começa a acelerar o carro, olha apressado para o relógio e diz “ vamos ver o sol nascer na praia”. “Você só pode estar maluco, hoje é quarta-feira, tenho que trabalhar amanhã, e provavelmente você também”, ela disparou meio assustada, meio feliz, adorando toda aquela ideia. “Eu sei disso, mas quem se importa com trabalho? Decidi que de hoje em diante aproveitarei cada segundo da minha vida”, percebendo um momento de fragilidade dela, ele retomou as rédeas da situação.

A lua cheia clareava a estrada em direção ao mar. Pela serra, o ronco do motor quebrava o silêncio da madrugada. Ele começou a contar sobre a sua vida, suas experiências, viagens até a adolescência onde o pai adoeceu e perderam todo luxo e conforto que o dinheiro podia comprar. Hoje trabalha em uma multinacional, estuda direito, mas seu grande sonho era ser biólogo. Olhando pela janela ela quase não prestara atenção nas palavras dele, mas sim em uma música que começou a tocar logo que pegaram a estrada, alguns versos martelavam sua cabeça “…I am yours now, So now I don’t ever have to leave, I’ve been found out…” cantava uma doce voz feminina quase como um sussurro, e cada vez que a música terminava, ela apertava o botão do rádio para que voltasse e assim foi durante todo o trajeto, onde não disse uma única palavra. Toda aquela ousadia foi deixada para trás, a doce menina estava tomando conta mais uma vez, mas ela tinha medo, se machucara muito da última vez que agiu assim com alguém, e não queria vivenciar isso novamente, então decidiu tomar a iniciativa sempre, surpreender para não ser surpreendida, mas algo mudou deste que ele decidiu pegar a estrada. Começou a entrar no jogo dele mesmo que não prestasse atenção naquele rapaz que estava ao volante do carro a levando para uma praia qualquer. E foi então que sem perceber teve seus pensamentos cortados pela voz dele, “ Hey estamos quase chegando, você me parece cansada, não disse uma única palavra desde que começamos a descer a serra”. Então ela se virou devagar e foi então que ele pode perceber a real beleza daqueles olhos, um conjunto perfeito, simetricamente, os contornos ligeiramente puxados, os cílios e sobrancelhas bem desenhadas eram moldura perfeita para aquele belo par de gemas verde-claro. Aquele calafrio tomou conta do corpo dele, como se tivesse tomado um choque, ele engoliu em seco, e toda aquele teatro de arrogância fora desarmado naquele momento, tanto da parte dele quanto da parte dela.

O sol despontava no horizonte, dando sinais de mais um dia de calor, e quando os primeiros raios iluminaram o oceano, ele encostou o carro na areia. Tiraram os sapatos e descalços foram se sentar mais próximo da água, onde ficaram em silêncio apreciando a beleza das ondas que se formavam e quebravam próximo a eles. Então ela decidiu falar, “ sabe neste domingo estou embarcando para França, onde passarei uma temporada, decidi levar a vida a sério ao menos dessa vez. Depois de anos apenas gastando a fortuna que meu pai conquistou durante esses anos todos, resolvi que agora quero ser a dona do meu nariz. Foi assim que me inscrevi em um curso de pedagogia e nos próximos seis meses os livros serão meus melhores amigos”. Sem deixá-lo esboçar alguma reação ela continuo, “ aquele telefonema foi meu último ato de loucura, atendê-lo e te trazer até a minha casa, me fez pensar que seria a minha despedida desde modo de vida no qual foi a minha vida durante muito tempo. Falamos apenas sobre banalidades, nada de muito sério, mas sai fora da minha zona de conforto, onde amigas e homens interessados apenas em minha beleza e dinheiro me cercam. Estou sentada na areia desta praia com um desconhecido, tomando cerveja barata, vendo o sol nascer e a única certeza disso tudo é que a sua companhia foi maravilhosa”.

Ele se levantou, tirou a camisa, deu alguns passos, arrancou o cinto e depois a calça, ficando apenas com a cueca, correu em direção ao mar e mergulhou na primeira onda, quando se levantou ela já estava em pé, sem precisar ser chamada também arrancou a roupa e foi caminhando lentamente ao mar. O sol iluminava seus lindos cabelos e dava um contorno especial aquele belo corpo, deixando-o hipnotizado dentro d’água. Ela então o alcançou e sem dizer uma única palavra o beijou demoradamente, um beijo delicado e doce sem pressa. Abraçados ficaram por um longo tempo, apenas se conhecendo, cada parte do corpo dele aquecendo o corpo dela entre beijos e carinhos. Sem dizer uma única palavra até saírem da água e entrarem molhados no carro dele.

Na volta ela pegou no sono, e com o dia já claro retornaram a cidade. Na cabeça dele um turbilhão de coisas estava se passando. Primeiro a falta no emprego, coisa que jamais fizera em toda vida, depois se apaixonar por uma menina que estava de malas prontas para a Europa e ficaria por lá nos próximos seis meses, provavelmente ela iria esquecê-lo e se casar com um francês que não toma banho e usa perfumes doces. Todo aquele circo contribuiu para este final, deste o modo como ela falou com ele e as atitudes dos dois. Decidiu então deixá-la em casa e não pensar mais nisso. Encarar apenas como uma “ficada” de balada, sem telefonemas no dia seguinte nem nada. Com um beijo na testa ele a despertou, no portão da casa dela. Meio com sono, meio confusa, ela apenas se despediu, agradeceu pela noite e saiu do carro. Ele dirigiu até seu apartamento do outro lado da cidade e do jeito que entrou em casa se atirou na cama, sem se importar com mais nada, apenas gostaria de dormir as próximas doze horas sem ser interrompido.

(Continua)

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